Pangolins são mamíferos de médio porte, pertencentes a ordem Pholidota e os únicos representantes da família Manidae. Muito pouco é sabido sobre os Pangolins de forma geral, porque são considerados difíceis de se estudar na natureza. São animais solitários e apenas interagem na época do acasalamento. Quando ameaçados, enrolam-se para formar uma bola e deixam as escamas conspícuas, circundantes ao corpo.
Quatro espécies de Pangolins são descritas para África, duas das quais ocorrem em Angola, o Pangolim-de-barriga-branca (Phataginus tricuspis) e o pangolim terrestre de Temminck (Smutsia temminckii). Ambas as espécies são mais comuns em savannas, sendo o Pangolim de Temminck o mais amplamente distribuído dos Pangolins africanos.

O tráfico ilegal de animais é também um meio de transporte para vírus e bactérias chegarem a outras partes do mundo. A carne de caça é um vector para doenças, pois não há controlo das condições de caça, transporte e conservação da mesma. Semelhante a maior parte dos mamíferos de pequeno e médio portes, o pangolim é também um dos animais mais caçados em Angola, devido a sua carne e escamas, estas últimas muito usadas pela medicina tradicional asiática, mas que na realidade os seus efeitos de cura são um mito.
Podem os pangolins ser considerados hospedeiros intermediários do COVID-19 (coronavírus)?
Os coronavírus são uma grande família viral de genoma simples de RNA de sentido positivo conhecidos desde meados dos anos 1960, que causam infecções respiratórias em seres humanos e em animais. Pertencem a família Coronabiridae e da ordem Nidovirles. Geralmente, infecções por coronavírus causam doenças respiratórias leves a moderada, semelhantes a uma gripe comum. Os coronavírus comuns que infectam humanos são alpha coronavírus 229E e NL63 e beta coronavírus OC43, HKU1.
Após a descoberta do vírus em 2019, acreditava-se que o mesmo tivesse divergido das cobras, embora não houvesse evidências suficientes que o comprovasse. Porém, estudos recentes indicam que o vírus tenha divergido de parasitas que habitam em pangolins, pois, possuem um material genético 99% igual ao do vírus encontrado neste animal.
Por ser um animal muito comercializado no mercado clandestino, é muito provável que alguns dos animais vendidos nos mercados da Ásia provenham da África, e especialmente de Angola, por haver pouca fiscalização e uma grande pressão de caça e venda destes animais.
O COVID-19 como uma ameaça a Saúde Mundial
Sintomas e transmissão
Os coronavírus humanos comuns causam infecções respiratórias brandas a moderadas de curta duração. Os sintomas podem envolver coriza, tosse, dor de garganta e febre. Esses vírus algumas vezes podem causar infecção das vias respiratórias inferiores, como pneumonia ou causar síndromes respiratórias graves, como a síndrome respiratória aguda grave que ficou conhecida pela sigla SARS, em inglês “Severe Acute Respiratory Syndrome”. Esse quadro é mais comum em pessoas com doenças cardio-pulmonares, com sistema imunológico comprometido ou em idosos. O Período de incubação é entre 2 à 28 dias.
Modo de Transmissão
De uma forma geral, a principal forma de transmissão dos coronavírus se dá por contacto próximo de pessoa a pessoa através de:
- tosse ou espirro;
- Contato pessoal próximo, como toque ou aperto de mão;
- Contato com objetos ou superfícies contaminadas, seguido então de contato com a boca, nariz ou olhos.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou o surto do novo coronavírus COVID-19 constitui uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII), tendo actualmente mais de 91 mil casos confirmados dos quais 3.700 resultando em mortes.
Cuidados e tratamento
O tratamento do COVID-19 ainda é sintomático, não existindo uma vacina específica para tal. Porém alguns cuidados podem ser tomados para evitar a propagação do vírus.
- Evitar contato próximo com pessoas doentes.
- Evitar tocar nos olhos, nariz e boca com as mãos não lavadas.
- Lavar as mãos frequentemente com água e sabão por pelo menos 20 segundos. Quando água e sabão não estiver disponível, um desinfetante à base de álcool pode ser usado para higiene das mãos.
- Não comer carne de caça, especialmente carne de pangolins.
A Conservação dos pangolins em Angola
Em Angola o pangolim terrestre de Temminck distribui-se no sul do país, típico das savannas mais arborizadas e, é mais vulnerável, enquanto que o pangolim de barriga branca ocorre mais a norte.
Segundo a Unidade de Combate aos Crimes Ambientais, nos últimos 4 anos, foram várias as apreensões de Pangolins caçados em Luanda, maioritarimente na Quiçama e arredores, e na parte mais a norte do país, ao longo da estrada N100, incluíndo as províncias do Bengo, Kwanza Norte e Malanje.

Foto de: Sara Elizalde.
A perda do habitat e o comércio ilegal, são as principais causas do declínio às populações de ambas as espécies no país.
Apesar do seu estado de conservação preocupante, um pouco por todo o país, o Pangolim de Temminck é listado como Vulnerável (VU), pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) e o Pangolim-de-barriga-branca como Quase Ameaçado (NT).
Dentre as várias espécies listadas no Apendix II da Convenção para o Comércio Internacional das Espécies Ameaçadas (CITES), o Pangolim africano de barriga branca é das espécies mais caçadas para o comércio internacional, o que coloca-o em um estado de conservação alarmante se nenhum acção para a sua protecção for desenvolvida com urgência.
Apesar das duas espécies ocorrerem também em áreas protegidas de Angola como os Parques Nacionais da Quiçama, do Bicuar, da Mavinga e do Luenge-Luiana, há uma necessidade de se desenvolver um programa específico para a conservação das mesmas, que incluísse uma legislação pertinente para as áreas de ocorrência. Um projecto de conservação que investigue as densidades populacionais de ambas as espécies, corrente áreas de distribuição e o impacto das acções antropogénicas no declínio das populações de pangolim.
A conservação de espécies como o Pangolim pode evitar doenças como o coronavírus de se proliferarem, por isso, evite comprar e consumir carne de caça – não só irá evitar a proliferação de doenças transmissíveis mas também contribuirá para a protecção de espécies em Angola.
Sempre que encontrar carne de caça a venda, denuncie!

Referências
Huntley, B.J., Russo, V., Lages, F. Ferrand, N. (2019) Biodiversity of Angola. Science & Conservation : modern synthesis, 3-544.
IUCN (1993) Angola: Environmental Synopsis. , 1–27.
Ministério do Urbanismo e Ambiente, MINUA (2006). Primeiro Relatório Nacional para a Conferência das Partes da Convenção da Diversidade Biológica. Angola. 10-19.
November, B. (2014) Protected areas in the Congo Basin : failing both people and biodiversity ?. Rainforest foundation, UK. Securing lands, sustaining lives. 6-144.
Pietersen, D., Waterman, C. Hywood, L, Rankin, P. & Soewu, D. 2014. Smutsia temminckii. The IUCN Red List of Threatened Species 2014. e.T12765A45222717.
https://www.publico.pt/2020/02/13/ciencia/noticia/novo-coronavirus-17-ilustracoes-1904059
https://www.who.int/emergencies/diseases/novel-coronavirus-2019
Suzana Bandeira é coordenadora da Campanha de Biodiversidade e Conservação da EcoAngola, Licenciada em Biologia pela Faculdade de Ciências da Universidade Agostinho Neto. Mestre em Ciências Biológicas com foco em Biodiversidade e Conservação dos Recursos Naturais pela Universidade de Villanova, Pennsylvania, USA.
Filipa Vaz é colaboradora voluntária da EcoAngola, Epidemiologista na Organizaçao Mundial de Saúde (OMS) em Angola, Directora Técnica do laboratório LABORMED e Chefe de Patologia clínica do laboratório da CEMEDIC em Luanda. Licenciada em Biologia Molecular pela Universidade Oxford Brookes, UK e Mestre em Ciências Biómedicas pela Universidade Aston, UK.