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Tudo o que precisa saber sobre a Palanca Negra Gigante (Hippotragus niger variani)

by Eco Angola

A Palanca Negra Gigante, também conhecida por palanca real de Angola ou palapala conforme é chamada pelos habitantes de certas regiões onde ela habita, é um dos antílopes mais raros do mundo. É um dos mais importantes símbolos de Angola, aparecendo na moeda nacional, nos passaportes, como símbolo da companhia aérea nacional e figura estampada no uniforme da selecção nacional de futebol, com o mesmo nome.

Manada de palanca negra gigante preparando-se para a fuga. Fonte: Garcia de Orta, 1960.
Manada em fuga na Reserva Natural Integral do Luando. Fonte: Garcia de Orta, 1960.

De nome científico Hippotragus niger variani, a palanca negra gigante é uma subespécie da espécie de palanca negra (Hippotragus niger). É antílope grande e musculado, que só se encontra em Angola, e um dos últimos grandes mamíferos descritos em África. O termo “gigante” deriva dos seus enormes cornos curvos, que podem crescer até 165 cm de comprimento, tamanho pouco comum e único para um antílope.    

Um macho de palanca negra gigante no seu habitat. Foto: Pedro Vaz Pinto.

A caça furtiva pelos seus grandes cornos, a perda do seu habitat devido a actividades humanas na região e especialmente a guerra civil durante e após a independência de Angola causaram impactos negativos dramáticos nas populações de palanca negra gigante, levando os cientistas a acreditar que a mesma havia sido extinta em Angola.

Ainda após o término dos conflitos, não haviam informações sobre a sua localização e, só em 2005, depois de muitas buscas e monitoramento com GPS e câmeras fotográficas com sistema de infravermelho, um grupo do Centro de Estudos e Investigação Científica da Universidade Católica de Angola, liderado pelo Dr. Pedro Vaz Pinto, obteve as primeiras evidências fotográficas do único rebanho constituído apenas por fêmeas. Estas palancas eram as únicas que sobreviveram no Parque Nacional de Cangandala, ao sul de Malanje.

Por não se verificar a presença de um único macho, as palancas negras gigantes cruzaram-se com outra subespécie, a palanca vermelha (Hippotragus equinus), dando origem a crias híbridas, o que colocou a palanca negra gigante num risco maior de extinção. Estes híbridos, devido as suas alterações genéticas, nasceram estéreis (não se podiam reproduzir) e mais susceptíveis  a doenças. Por este motivo, um dos primeiros passos dados pelo grupo de investigação foi tentar encontrar um macho e adicioná-lo ao grupo de fêmeas identificado anteriormente. Felizmente, foi encontrado um macho na reserva do Luando, que foi então transportado para reproduzir com o grupo de fêmeas encontradas no Parque Nacional da Cangandala.

A primeira descoberta científica

A Palanca Negra Gigante foi descoberta e descrita cientificamente pela primeira vez no século XX, sendo classificada por Bocage como Hippotragus niger. O nome Variani foi acrescentado em homenagem ao explorador britânico Frank Varian, que apresentou exemplares (espécimes) para então categorizar a palanca negra gigante como uma subespécie nova e única do território angolano. Por isso, cientificamente foi chamada de Hippotragus niger variani. 

Reino: Animalia

   Filo: Chordata

      Classe: Mammalia

          Ordem: Artiodactyla

              Família: Bovidae

                    Subfamília: Hippotragrini

                           Género: Hippotragus

                                   Espécie: Hippotragus niger

                                            Subespécie: H. niger variani

Quentin Keynes, o bisneto de Charles Darwin e Varian. Fonte: ANTELOPE from the ashes, 2010.

Os estudos da filogenia molecular, com comparações de DNA mitocondrial forneceram evidências que o antílope angolano que se encontra isolado, constitui um grupo monofilético (quer dizer um grupo de espécies que compartilham um ancestral comum) distinto, que se separou das demais subespécies a mais de 200.000 anos atrás (Pitra et.al., 2006).

Cladograma (ou diagrama) mostrando a posição da H. niger variani em linha vermelha, entre os seus parentes. Fonte: Dissertação de licenciatura de Érica Tavares (não publicada).

Distribuição geográfica e habitat

A Palanca Negra Gigante encontra-se no centro de Angola, limitada pela bacia do Alto Cuanza, dentro da Reserva Natural Integral do Luando e no Parque Nacional da Cangandala, ambos em Malanje. Segundo Pedro Vaz Pinto, no livro sobre a Biodiversidade em Angola (2019), a palanca negra é um antílope que habita particularmente em locais dominados por “miombo”, um tipo de mata e de savana mésica que ocorre em solos distróficos (solos ácidos e com baixa ou pouca fertilidade) dominados por árvores dos géneros “Brachystegia, Julbernardia e Isoberlinia”.

Localização do Parque Nacional da Cangandala e da Reserva Natural Integral do Luando Fonte: Google Maps em Dissertação de licenciatura de Érica Tavares (não publicada).

Este grande antílope é considerado uma espécie ecótona, porque habita em uma área de transição ecológica, ou seja, onde ocorre o contacto de dois ecossistemas diferentes. O seu habitat ideal são as savanas com a presença de “anharas” que é um tipo de savana infestada por térmitas e coberta por vegetação, encontrado tanto na Reserva Natural Integral do Luando (RNIL), como no Parque Nacional da Cangandala (PNC).

Habitat comum da palanca negra gigante. Foto: Pedro Vaz Pinto.
Miombo, habitat da palanca negra gigante. Foto: Pedro Vaz Pinto.

Ecologia

As palancas são animais muito fiéis ao seu território, que raramente realizam migrações. Alimentam-se maioritariamente de plantas, predominantemente gramíneas como Brachiaria, Digitaria, Panicum ou Setaria spp, comendo apenas a parte exterior e tenra das plantas. Porém, consomem também algumas folhagens de árvores e arbustos, como Diplorhynchus, Condylocarpon, consideradas como as suas preferidas. Pedro Vaz Pinto (2019) afirma que a Palanca Negra Gigante as vezes recorre à geofagia, que é o acto de comer terra, (no caso específico da palanca, a terra de locais escavados por térmitas), para obtenção de nutrientes e minerais que nem sempre conseguem obter, particularmente na época mais seca e com pouca vegetação.

Reprodução e dimorfismo sexual

Macho de palanca negra gigante com pelagem preta (abaixo); e a fémea pelagem castanha escura (acima). Fonte: Bovids of the world.

De acordo com a Fundação Kissama, que trabalha com a conservação da palanca negra gigante desde o seu redescobrimento, a palanca atinge o seu auge de acasalamento entre Setembro e Outubro, com uma duração de gestação de 8 à 9 meses. A maior parte das crias costuma nascer no final da época das chuvas, entre Maio e Julho.

Segundo José R. Castelló (Bovids of the world, 2016) nasce uma cria por cada reprodução, que é desmamada depois de 8 meses e atinge a maturidade perto dos 2 a 3 anos de idade. A sua esperança de vida é de aproximadamente 17 anos. Elas apresentam dimorfismo sexual, que é a diferença morfológica entre animais da mesma espécie, mas de sexo diferente. Os machos, enquanto filhotes, apresentam uma pelagem castanha clara, semelhante as fêmeas que apresentam pelagem de tons castanho escuro. Quando entram na fase adulta, os machos tendem a mudar a cor da sua pelagem para preta, diferenciando-se assim das fémeas, e ficam com os cornos maiores que os delas.

Quais as diferenças entre os gêneros e as espécies de palanca?

Palanca Negra Gigante a esquerda, Palanca Negra comum a direita. Fonte: Fundação Kissama.

Geralmente as pessoas confundem os antílopes do gênero Hippotragus, ao qual pertence a Palanca Negra Gigante, que consiste em três espécies:

  1. Hippotragus leucophaeus (palanca azul): endémica da África do Sul, mas infelizmente está extinta.
  2. H. equinus  (palanca vermelha) muitas vezes confundida com a palanca negra gigante, contudo o macho também apresenta uma pelagem de tons castanhos. Existem pelo menos 6 subespécies conhecidas pela ciência.
  3. H. niger (palanca negra) “clássica”:  é notavelmente mais escura quando comparada à Hippotragus equinus. Da H. niger provêm 4 subespécies conhecidas:
  • H. n. niger (palanca negra comum), apresenta a pelagem mais escura, ocorre no sul do rio Zambeze, particularmente a norte do Botswana e em grande número no vale Matsetsi do Zimbábue, mas também é encontrado na África do Sul. Em Angola é encontrada nas províncias do Cuando Cubango e do Moxico.
  • H. n. variani (palanca negra gigante), apenas encontrada na Reserva Nacional Integral do Luando e Parque da Cangandala (Angola).
  • H. n. kirkii, ocorre no centro de Angola, na Tanzânia e na África central, a Oeste do vale do Rift no Quénia.
  • H. n. roosevelti (a zibelina oriental), é a menor das quatro subespécies e ocorre na Tanzânia e no Quénia.
Três subespécies de palanca negra, com as suas respectivas fêmeas que apresentam pelagem de tons castanhos. Fonte: Bovids of the world.

Estado de conservação

Por ser uma espécie rara e endémica, ocorrendo apenas em Angola, isto rendeu-lhe o estatuto de protecção internacional, desde a resolução tomada em Londres na Convenção Internacional para a Protecção da Flora e Fauna Africana em 1933, na categoria de espécie de classe A, digna de protecção urgente.

Na década de 1970, estimou-se que havia cerca de 2500 Palancas Negras Gigantes. Os dados apresentados pela Fundação Kissama em 2019, mostraram que existem cerca de 200 Palancas Negras Gigantes, com aproximadamente 70 no parque Nacional da Cangandala e 140 na Reserva Integral do Luando, isto com o trabalho extensivo que tem sido feito para sua reprodução após encontrarem a única manada existente em 2005, como explicado acima.

Actualmente, a palanca negra gigante encontra-se no estado “criticamente ameaçado de extinção”(CR) na lista vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) 2017, devido ao tamanho reduzido da sua população e fragilidade, pois a caça furtiva ainda é uma realidade em Angola, e a genética também tem um peso muito grande nos casos em que a população é muito reduzida.

Apesar da palanca negra estar protegida por leis nacionais e tratados internacionais como a Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção (CITES), ainda assim continua a correr muitos perigos. Um exemplo específico e recente é o fogo posto no dia 1 de Julho de 2020 por caçadores furtivos, que pôs em risco 90 palancas negras gigantes.

Porém, esforços têm sido feitos para combater este problema e melhorar a protecção deste animal. Até Julho de 2020, foram retirados pelo menos 266 armadilhas nos santuários da Palanca Negra Gigante. No entanto, é necessário melhorar a gestão dos parques, com acções de reabilitação das infra-estruturas. É também extremamente importante que se aumente a sensibilização da população local, para educar, recrutar e formar novos “guardiões” do animal. Isto pode impulsionar o turismo local e gerar renda, ajudando a economia local e promovendo a protecção da palanca.

O governo de Angola deve também criar e tornar mais rígidas as leis ambientais, apesar da multa por abate de uma palanca negra gigante ser correspondente a 21 milhões de kwanzas e prisão de 3 anos, conforme informou Vladimir Russo, coordenador técnico do comité executivo angolano para acompanhamento e reforço da implementação de medidas de protecção e conservação da palanca negra gigante e porta-voz da Fundação Kissama, num workshop em 2019.

Curiosidades

A Palanca Negra Gigante foi o primeiro animal em Angola a receber protecção legal plena, sendo depois categorizada como um símbolo nacional durante o domínio colonial até os dias de hoje. Este é um exemplo claro de como a Cultura está ligada a conservação de espécies, pois a palanca une os angolanos com o espírito de orgulho e patriotismo, e é ainda considerada por alguns, um animal sagrado.

No relatório de monitorização de 2019, a Fundação Kissama explicou que um dos machos marcados em 2013 chamado “Bruno”, tinha na realidade 18 anos de vida. Esta foi uma surpresa agradável pois nunca tinham se deparado com um macho com mais de 15 anos. Já só tinha poucos meses de vida pela frente, devido a sua péssima condição física, com a gengiva e dentes desgastados.

Para conhecer mais sobre o Projecto de conservação da Palanca Negra Gigante e sobre como podes ajudar, visitem o site da Fundação Kissama. Também podem acompanhar os relatórios anuais e todo o trabalho feito por eles: https://www.fundacaokissama.co.ao/

Referências bibliográficas

CASTELLÓ, R. José et.al.Bovids of the world. 2016.

Fundação Kissama. (n.d.). Fundação Kissama. Retrieved from A Palanca Negra Gigante: https://www.fundacaokissama.co.ao/palanca_o_que_e

FURSTENBURG, Deon Sable Antelope (Hippotragus niger). 2016

Global Media Group. (2019). Diário de Notícias. Retrieved from Matar uma palanca negra gigante em Angola custa ao infrator 53 mil euros – autoridades: https://www.dn.pt/lusa/matar-uma-palanca-negra-gigante-em-angola-custa-ao-infrator-53-mil-euros—autoridades–10786088.html

HUNTLEY, J. Brian et al. Biodiversidade de Angola.1 ed.2019

International Union for Conservation of Nature. (2009). IUCN. Retrieved from Rare sable antelope survives the Angolan civil war: https://www.iucn.org/content/rare-sable-antelope-survives-angolan-civil-war

International Union for Conservation of Nature and Natural Resources. (2020). IUCN Red List. Retrieved from Giant Stable : https://www.iucnredlist.org/species/10169/50188611

MONARD. A. Contribuition a la mammologie d’Angola. Arquivo do Museu Bocage Lisboa, 1935.

ORTA G. Revista da Junta das Missões Geográficas e de Investigação do Ultramar. Lisboa. Vol. 8 (nº1), 21-38, 1960.

TAVARES, P. M. Erica Sofia, (2018-2019). Hippotragus niger variani, Thomas 1916 – Reinforcing species conservation management. School of Biosciencies, University of Nottigham. (Não publicado)

THOMAS, O. Hippotragus niger variani, in abst. Procedings of the zoological Society of London, Part. I, 1916.

VARIAN, H. F. Some African Milestones. Oxford, 1953.

Este artigo teve a co-autoria de:

  • Erica Tavares, bióloga ambiental e ecologista, directora executiva da EcoAngola.
  • Helena Abreu, colaboradora voluntária da EcoAngola e estudante da Universidade Agostinho Neto, Faculdade de Ciências no curso de Biologia.
  • Célsia Africano, ambientalista, voluntária na EcoAngola e trabalha em Conservação da Biodiversidade e Áreas de Conservação, projectos de mitigação de Conflito Homem-Animal.”
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