A maioria dos problemas ambientais vividos hoje estão directamente relacionados ao estilo de vida “moderno” adoptado pela nossa sociedade, que é marcado por um consumismo exagerado e práticas bastante insustentáveis.
Para alterarmos estes hábitos, é necessário que se promova um modelo de educação que abrace a sustentabilidade e a responsabilidade social e ambiental como a base das nossas acções.
A educação ambiental no âmbito escolar deve ser um instrumento de consciencialização e reflexão, despertando a preocupação individual e colectiva para a questão ambiental, voltada para a mudança comportamental, e visando assim o desenvolvimento sustentável, com a preservação do ambiente e melhoria da qualidade de vida das pessoas.
Supõe-se que as crianças, que representam as gerações futuras e por estarem em fase de desenvolvimento, consigam absorver mais facilmente uma consciência ambiental, e que esta seja traduzida de forma mais bem-sucedida do que nos adultos, já que ainda não possuem hábitos e comportamentos constituídos (CARVALHO, 2001).
Por esta razão, é importante implementar a educação ambiental nas escolas, para preparar cidadãos conscientes frente às questões ambientais, que contribuam para preservar o ambiente e ter melhor qualidade de vida. Expor crianças a um ambiente rico em experiência sensorial e desafios cognitivos tem resultados duradouros, já que na infância a sensibilidade é mais intensa (CAPRA, 2008).
Em Angola, a educação ambiental é um direito de todos, garantido pela Constituição da República, no seu artigo 39º, ao afirmar que “todos têm o direito de viver num ambiente sadio e não poluído, bem como o dever de o defender e preservar” (ANGOLA, 2010).
Reconhece-se hoje a grande evolução do conhecimento humano e que este permitiu o desenvolvimento científico e tecnológico, tornando a nossa vida cada vez mais “fácil”. No entanto, quase ao mesmo tempo, o homem tem propiciado a destruição de toda a vida no planeta. É portanto necessário aceitar o desafio constante de corrigir os danos causados ao ambiente, parar com a extração irresponsavel dos recursos naturais e recuperar o ponto de equilíbrio do planeta.
Assim, a educação ambiental surge como um elo de ligação entre a natureza e a sociedade, através da promoção de uma postura mais ecológica do homem, visando fundamentalmente a formação integral do indivíduo, enquanto agente socialmente activo, tendo como um dos seus fundamentos a visão sócio ambiental – entendendo o ambiente como um espaço de relações e interacções sociais, culturais e naturais. A educação ambiental frisa a ideia de que nem sempre as interacções humanas com o ambiente são danosas, estimulando o desenvolvimento de laços afectivos com a natureza.

Estado da educação em Angola – “onde estamos”
O atual sistema de educação Angolana apresenta diversas debilidades, como a fraca participação dos pais no processo de formação, a defasada estrutura física, metodológica e didática nas escolas, somadas à constante desvalorização de quadros e a falta de investimento no sector, que impedem que se tenha um ensino de qualidade e excelência.
Buza (2013), demonstrou em seu trabalho, que os problemas da educação em Angola são bastantes complexos e não podem ser resolvidos de forma simples. Esses problemas são respaldados pela precariedade de políticas concretas na área de formação de professores e de educação.
É importante pensarmos em alternativas para consolidação de uma educação ambiental sólida e consistente em Angola, superando as dificuldades acima descritas, com o objetivo de garantir um futuro melhor para as nossas crianças e para o nosso país.
Proposta de implementação de educação ambiental no ensino académico
Como o contexto onde se insere a criança tem bastante influência no seu desenvolvimento e no resgate de valores, a interacção entre a escola, os alunos e os pais, é fundamental para que se estabeleça uma relação favorável de aprendizagem.
Assim sendo, importa que as relações que ocorram no seio familiar sejam voltadas para a satisfação das necessidades dos seus membros, não como indivíduos isolados, mas socialmente dependentes.
É fundamental que tudo aquilo que se fizer na escola também tenha um acompanhamento contínuo na comunidade e em casa, tal como destacamos abaixo:
A nível estrutural (escola):
- A implemnetação de ecopontos em todos os espaços comuns e onde se façam refeições, incentivando à separação do lixo;
- A horta pedagógica é fundamental para conscientizar os estudantes sobre a importância da preservação de recursos ambientais para a produção sustentável de alimentos;
- Os filtros de água são fundamentais para a poupança de água e a redução do uso de garrafas de plástico;
- Caminhadas ecológicas para limpeza do bairro/cidade com acompanhamento dos professores e o envolvimento da comunidade.
No sistema pré-escolar(dos 3 aos 5 anos):
- Animais e plantas: sugerimos a adoção de animais ou plantas para incutir responsabilidade. Assim, terão maior afecto e entendimento sobre os animais e plantas, como devemos cuidar e porquê que devemos cuidar/preservar;
- Contacto com a natureza: o contacto directo com a natureza é fundamental para que tenham maior consciência daquilo que os rodeia, conseguindo identificar lugares sujos e limpos, ajudando a encontrar pequenas soluções e alertando os familiares para a recolha e separação do lixo;
Do micro para o macro: é importante que a escola (micro), a família (meso), a sociedade (macro) estejam interligadas. Promover actividades entre pais e filhos na escola tem um impacto muito grande na aprendizagem e no desenvolvimento da criança. Como por exemplo: concurso de obras de arte com material reciclado, usando certos materiais solicitados pelos professores como copos descartaveis, garrafas PET, etc.
No ensino primário (dos 6 aos 11 anos):
- Sugerimos que se instigue a planatação de diversas hortaliças e frutas como por exemplo: feijão, tomate, laranja, abobora, jndungo etc. Os alunos devem ser observados e orientados a cuidar das plantações até ao final do ano;
- Fazer exposições de brinquedos e objectos do dia-a-dia com material reciclado;
- Realizar visitas de estudo a quintas, praias, mangais e outras paisagens naturais;
- Criar uma rotina ligada ao ambiente que permita que pequenos hábitos ecológicos sejam interiorizados;
- Promover pequenos debates sobre questões ambientais, tornando as crianças mais conscientes e levando-as a encontrar soluções para os problemas ambientais;
No 1º ciclo (dos 12 aos 14 anos):
O 1º ciclo já possui algumas disciplinas especificas como a biologia, que pode ajudar a relacionar com o meio ambiente, a ecologia e os ecosistema. Sugerimos que as aulas fossem mais direccionadas adotando os conteúdos programáticos.
No 2º ciclo (dos 15 os 17 anos):
No 2º ciclo os alunos já têm capacidade e maturidade suficiente para criar projectos ecológicos e colocá-los em prática. Nesse sentido, sugerimos que se façam estudos de campo, escrita de artigos de opinião sobre a preservação do ambiente, entre outras acções voltadas para educação ambiental.
A educação ambinetal em Angola deve merecer a maxima atenção por parte das autoridades governamentais. É impossivel pensar em práticas educativas ecologicas e sustentavelmente saudaveis e não relacionar com a organização do sistema administrativo. Portanto, é importante que se comece a desenvolver e intensificar a educação ambiental a partir do ensino pré-escolar até ás universidades, pressupondo uma redefinição e implementação nos curriculos escolares.
REFERÊNCIAS
ANGOLA. Constituição da República de Angola. Luanda, 2010. Disponível em: https://www.wipo.int/edocs/lexdocs/laws/pt/ao/ao001pt.pdf. Acesso em: 27/07/2020.
BUZA, R. G.C. Educação Ambiental: ideias, saberes e práticas relatadas por professores em um país em reconstrução, Angola. Dissertação (Educação em Ciências e Matemáticas). Universidade Federal do Pará. Belém, p.17.2013.
CAPRA, F. Alfabetização Ecológica: O desafio para educação do século 21. In: TRIGUEIRRO, A. et al. Meio Ambiente no século 21: 21 especialistas falam da questão ambiental nas suas áreas de conhecimento. 5. Ed. Campinas: Armazém do Ipê (Autores Associados), 2008. Cap. 1. P. 19-33.
CARVALHO, I.C.M. Qual educação ambiental? Elementos para um debate sobre educação ambiental e extensão rural. Agroecologia e Desenvolvimento Rural Sustentável, Porto Alegre, v. 2, n. 2, p.43-51, abril/jul. 2001.
Cordenador voluntário da EcoAngola, Neidelenio Soares é estudante de Química na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira, no Ceará-Brasil e Pesquisador do Grupo Interdisciplinar em Química