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Os Khoisan: território, identidade e oportunidades de desenvolvimento verde em Angola

Feliciano Ginga, André Chiweyengue by Eco Angola

Desde que o Homo sapiens migrou de África para outras regiões do mundo, inúmeras culturas transformaram-se e misturaram-se ao longo dos milénios. Porém, os povos Khoisan preservaram, em grande parte, características culturais e genéticas ancestrais, sendo muitas vezes descritos como os mais antigos habitantes do continente africano e, possivelmente, do mundo, além de considerados geneticamente próximos dos primeiros humanos modernos.

O termo “Khoisan” resulta da junção de dois grupos principais culturalmente distintos mas geneticamente relacionados, que, por sua vez, ainda se ramificam em vários outros pequenos grupos:

  • Khoi Khoi (hotentotes) — tradicionalmente pastores;
  • San (bosquímanos) — tradicionalmente caçadores-recolectores.

As suas práticas assentam num conhecimento profundo da natureza, visível também nas  pinturas rupestres atribuídas aos seus ancestrais e consideradas entre as mais notáveis do continente.

Distribuição geográfica e situação sociocultural dos Khoisan

Os povos Khoisan habitam actualmente em  Angola, Botsuana, Namíbia, Zimbabué e África do Sul e são considerados povos indígenas (IWGIA). Estimativas apontam para cerca de 800 mil Khoisan no continente africano, distribuídos da seguinte forma:

  • Namíbia: ± 35.000, correspondente a 1% da população (dados de 2020)
  • Botsuana: ± 75.000, correspondente a 3,10% da população (dados de 2023)
  • África do Sul: ± 600.000, correspondente a 1% da população (dados de 2020)
  • Angola: 27 980, correspondente a 0,077% da população (dados de 2024)
  • Zimbabué: 4.400, correspondente a 0,032% da população (dados de 2020)

Os povos indígenas destes países são, segundo o IWGIA, os vários subgrupos Khoisan. A Indigenous Africa reportou 5 categorias de violações dos direitos dos povos indígenas na África Austral, nomeadamente: conservação, conflitos étnicos, infraestruturas, expansão urbana e as violações resultantes da indústria extrativa. Destes, as violações infraestruturais e étnicas são reportadas como recorrentes em Angola também, particularmente no Sudeste, região onde se encontra uma considerável densidade de povos San.

Mapa sobre a violações contra os povos indígenas de África.

Em Angola os Khoisan são considerados povos não-Bantu, e concentram-se sobretudo nas províncias do Cunene, Namibe, Huíla, Cuando e Cubango. Eles enfrentam pressões significativas resultantes de conflitos territoriais com povos Bantu de culturas expansionistas como reportada por Indigenous Africa.

Para melhor compreender esta dinâmica no terreno, a equipa da EcoAngola na Região Sul de Angola consultou comunidades San na Huíla. Maria Manuel, cidadã angolana da etnia San, reside no Lubango e é casada há 30 anos com Eduardo Cambongue, que é da etnia Bantu. Tanto Maria Manuel como o seu esposo confirmam que a maioria das terras ancestrais San está a ser ocupada pelos Bantu, resultando na escassez de áreas para o exercício de suas práticas ancestrais tradicionais, o que, consequentemente, aumenta as deslocações das comunidades Khoisan.

Maria Manuel, Khoisan residente do Lubango (Fonte: EcoAngola, 2025)

Um dos grandes desafios actuais, é que o Estado Angolano  não reconhece formalmente os povos indígenas na legislação nacional (IWGIA). O país também não ratificou a Convenção nº 169 da OIT, instrumento fundamental para a protecção dos povos indígenas e tribais.

Apesar disso, algumas comunidades continuam a preservar práticas tradicionais na Namíbia, Botsuana e em zonas restritas do sul de Angola. No entanto, parte importante da nova geração tem sido grandemente influenciada por outras culturas.

“A nova geração, está cada vez mais aculturada. Tem mais dificuldade em seguir  os costumes tradicionais. Práticas como apicultura e artesanato são cada vez menos visíveis na nova geração” – Maria Manuel

Muitos Khoisan residentes na província da Huila, estão a adoptar práticas dos povos Bantu, deixando para trás a dependência da caça, tendo começado a fazer agricultura. Alguns Khoisan já enviam os seus filhos para estudar, como também fez a da dona Maria ao seu.

Maria Manuel ao lado do esposo Eduardo Cambongue, Lubango (Fonte: EcoAngola, 2025)

Adicionalmente as línguas e os sistemas culturais raramente têm reconhecimento oficial. Em Angola por exemplo, no relatório do censo de 2024 não constam dados sobre as línguas e dialetos dos Khoisan. Os traços culturais também não têm sido preservados nem valorizados. No  Museu de Antropologia de Luanda, não se vê nenhuma exposição nem colecção de objectos ou pinturas referentes aos hábitos e costumes dos povos Khoisan. O conjunto das exposições é na sua maioria dominado por exposições do povo Bantu. Assim, isto também reflecte os diversos processos políticos e de gestão territorial que decorrem sem participação directa destas comunidades.

Assim, um dos legados mais antigos da história da humanidade está a ser apagado.

Como podemos promover a conservação etnocultural dos Khoisan?

A profunda relação dos Khoisan com o ambiente — flora, fauna e clima — sustenta práticas de uso sustentável dos recursos naturais.

Neste contexto, o empreendedorismo verde e a valorização dos Produtos Florestais Não-Madeireiros (PFNM) surgem como vias promissoras para fortalecer a autonomia económica e a salvaguarda cultural destas comunidades.

De acordo com a entrevista feita a dona Maria, os PFNM de grande importância para os Khoisan são:

  • Frutos silvestres (maboque, nonhande e nundemba);
  • Raízes e tubérculos;
  • Plantas medicinais;
  • Mel selvagem;
  • Resinas;
  • Sementes;
  • Fibras vegetais.
Maboque, (Fonte: Medium)
Meninos vendendo nonhande na Huila, (Fonte: O País)

Sobre as plantas medicinais, foram destacadas:

  • Quinino – usada para a aliviar dores de barriga e de cabeça;
  • Dumbo – utilizada para combater oxiuruses. 

Há um interesse na comercialização destes medicamentos naturais mas devido aos desafios para a obtenção de licenças, sem apoios e orientação para a utilização deste produtos, este continua a ser um factor limitante para expandir o potencial de geração de renda para estas comunidades Khoisan.

Exemplos inspiradores dos Khoisan – Tribo Ju/’hoansi da Namíbia: 

No nordeste da Namíbia, na região de Nyae Nyae existe uma tribo khoisan denominada Ju/’hoansi. Recebem apoios de organizações que trabalham na defesa dos direitos, educação e valorização da cultura local, conciliando economia e conservação, nomeadamente:

Nyae Nyae Development Foundation of Namibia (NNDFN) — criada em 1981, que actua na gestão sustentável dos recursos naturais, turismo comunitário, educação e governação local, e

Diversos materiais e actividades desenvolvidos pelos Ju/’hoansi através do projecto NNDFN (Fonte: NNDFN)
  • Ju/’hoansi Development Fund (JDF) — fundada em 2007, e promove educação em línguas maternas e valorização cultural, incluindo actividades agrícolas adaptadas ao contexto ecológico.
Diversos programas educativos desenvolvidos na comunidade Ju/’hoansi através do projecto JDF (Fonte: JDF)

Estes modelos regionais abrem caminho para quatro potenciais oportunidades para empreender com os Khoisan de Angola:

  • Guias turísticos comunitários – Actividades de ecoturismo e turismo cultural centradas no conhecimento local sobre paisagens, fauna, flora, história e arte rupestre;
  • Gestão comunitária dos recursos naturais – Fortalecimento do papel dos Khoisan como guardiões do território, com participação activa em projectos de conservação e uso sustentável de PFNM;
  • Arte e artesanato tradicional – Comercialização de cestaria, colares, esculturas, instrumentos musicais e outros produtos baseados em fibras e sementes. 
  • Agroecologia e recolha sustentável – Valorização de saberes ligados a plantas medicinais, frutos silvestres, apicultura e técnicas de recolha sustentável, promovendo segurança alimentar e conservação ambiental.

Conclusão

Para que estas oportunidades se tornem realidade, é essencial garantir a participação directa dos Khoisan. Iniciativas desenhadas sem a sua voz tendem a fracassar e podem agravar as suas vulnerabilidades. O desenvolvimento sustentável depende não apenas de tecnologia e investimento, mas também do respeito cultural, inclusão efectiva e conservação da sabedoria ancestral.

Os Khoisan têm conhecimento sobre o solo, as plantas, os animais, os ciclos e ritmos da terra. Reconhecer o seu papel como guardiões do território e parceiros activos na valorização dos produtos florestais não-madeireiros é fundamental para promover desenvolvimento equilibrado — onde o mercado pode prosperar sem destruir o território.

O REDEMPREENDE, iniciativa de uma parceria entre a EcoAngola, CODESPA e parceiros, nasce justamente com essa visão: promover um modelo de crescimento que una juventude, diversidade cultural e sustentabilidade ambiental. Ao estender oportunidades a comunidades como os Khoisan, o programa cria negócios verdes e constrói pontes entre o saber tradicional e a inovação moderna.

Referências 

EBSCO. Khoisan Peoples Disperse Throughout Southern Africa. EBSCO Research Starters, [s.d.]. Disponível em: https://www.ebsco.com/research-starters/ethnic-and-cultural-studies/khoisan-peoples-disperse-throughout-southern-africa. Acesso em: 10 dez. 2025.
CIÊNCIA VIVA. Afroceus: os Khoisan. [s.l.], [s.d.]. Disponível em: https://cienciaviva.org.br/afroceus-os-khoisan/. Acesso em: 10 dez. 2025.
IWGIA – INTERNATIONAL WORK GROUP FOR INDIGENOUS AFFAIRS. Website institucional. Copenhaga, [s.d.]. Disponível em: https://iwgia.org/en/. Acesso em: 10 dez. 2025.
IWGIA – INTERNATIONAL WORK GROUP FOR INDIGENOUS AFFAIRS. Indigenous peoples in Namibia. Copenhaga, [s.d.]. Disponível em: https://iwgia.org/en/namibia.html. Acesso em: 10 dez. 2025.
IWGIA – INTERNATIONAL WORK GROUP FOR INDIGENOUS AFFAIRS. Indigenous peoples in Botswana. Copenhaga, 2024. Disponível em: https://iwgia.org/en/botswana/5348-iw-2024-botswana.html. Acesso em: 10 dez. 2025.
IWGIA – INTERNATIONAL WORK GROUP FOR INDIGENOUS AFFAIRS. Indigenous peoples in South Africa. Copenhaga, 2025. Disponível em: https://iwgia.org/en/south-africa/5636-iw-2025-south-africa.html. Acesso em: 10 dez. 2025.
IWGIA – INTERNATIONAL WORK GROUP FOR INDIGENOUS AFFAIRS. Indigenous peoples in Zimbabwe. Copenhaga, [s.d.]. Disponível em: https://iwgia.org/en/zimbabwe.html. Acesso em: 10 dez. 2025.
INDIGENOUS AFRICA. Website institucional. [s.l.], [s.d.]. Disponível em: https://indigenousafrica.org/. Acesso em: 10 dez. 2025.
WORLD BANK. Relatório sobre povos indígenas e desenvolvimento. Washington, 2023. Disponível em: https://documents1.worldbank.org/curated/en/099040623191014684/pdf/P167817099783f0cd097f705906968dac43.pdf. Acesso em: 10 dez. 2025.
OPENEDITION JOURNALS. Artigo publicado na revista Mulemba. [s.l.], [s.d.]. Disponível em: https://journals.openedition.org/mulemba/473. Acesso em: 10 dez. 2025.
IWGIA – INTERNATIONAL WORK GROUP FOR INDIGENOUS AFFAIRS. Indigenous peoples in Angola. Copenhaga, [s.d.]. Disponível em: https://iwgia.org/en/angola/742-indigenous-peoples-in-angola. Acesso em: 10 dez. 2025.
ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO (OIT). Normlex – Base de dados de normas internacionais do trabalho. Genebra, [s.d.]. Disponível em: https://normlex.ilo.org/dyn/nrmlx_en/. Acesso em: 10 dez. 2025.
NNDFN – NATIONAL NATIVE DEVELOPMENT FUNDATION. About us. [s.l.], [s.d.]. Disponível em: https://www.nndfn.org/about-us. Acesso em: 10 dez. 2025.
VILLAGE SCHOOLS NAMIBIA. Village Schools Namibia. [s.l.], [s.d.]. Disponível em: https://www.villageschoolsnamibia.com/village-schools/. Acesso em: 10 dez. 2025.
INSTITUTO NACIONAL DE ESTATÍSTICA DE ANGOLA (INE). Publicação estatística. Luanda: INE, [s.d.]. Disponível em: https://www.ine.gov.ao/Arquivos/arquivosCarregados//Carregados/Publicacao_638996687409619846.pdf. Acesso em: 10 dez. 2025.
Feliciano Ginga, André Chiweyengue

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