Durante décadas, o rio Keve, nas zonas do Umbi e do Ebo, na província do Kwanza Sul, tornou-se conhecido por albergar uma das populações de hipopótamos (Hippopotamus amphibius) mais emblemáticas de Angola. Para quem visita a região, observar estes gigantes nas águas do rio constitui uma das experiências mais marcantes da paisagem local. Para as comunidades, porém, os hipopótamos fazem parte do quotidiano, e coexistir com eles exige conhecimento, respeito e adaptação.
Em Agosto de 2026, durante uma visita de constatação, moradores locais (que pediram para não ser identificados) relataram à EcoAngola um aumento preocupante da caça furtiva de hipopótamos desde julho de 2026, período em que é habitual observar um maior número de animais na região antes dos seus movimentos sazonais. Segundo estes testemunhos, vários indivíduos terão sido abatidos nas últimas semanas. De acordo com os moradores, a caça furtiva é motivada principalmente pela comercialização da carne de hipopótamo e dos seus dentes, frequentemente designados por “marfim de hipopótamo”. A carne é consumida e vendida localmente, enquanto os dentes, constituídos por marfim, possuem valor no mercado ilegal para a produção de peças ornamentais e outros artefactos. Embora este comércio seja menos conhecido do que o do marfim de elefante, representa uma ameaça crescente para as populações de hipopótamos em várias regiões de África.
Os residentes afirmam ainda que as ocorrências foram denunciadas às autoridades competentes. Apesar de terem ocorrido duas apreensões pela Polícia Nacional recentemente, os moradores consideram que as medidas adoptadas continuam insuficientes para travar a caça furtiva e responsabilizar os infractores, perpetuando um clima de impunidade que incentiva a continuidade destes crimes ambientais. A situação também não é isolada nem recente, uma vez que já existem registos e alertas sobre o declínio das populações de hipopótamos em África devido à caça para consumo de carne e ao tráfico dos seus dentes de marfim, incluindo referências a ocorrências em Angola.
Não existem actualmente estimativas públicas e actualizadas sobre o número de hipopótamos que habitam o rio Keve, o que dificulta a avaliação do impacto que esta pressão poderá estar a exercer sobre a população.
“Sem monitorização científica e sem uma resposta eficaz à caça furtiva, uma das populações de hipopótamos mais conhecidas de Angola poderá estar a desaparecer sem que o país tenha consciência da dimensão desta perda.”
Erica Tavares, Ecologista e Co-fundadora da EcoAngola
Como muitas espécies em Angola, o hipópotamo também é pouco estudado e pouco protegido
Apesar da notoriedade dos hipopótamos no rio Keve, são escassos os estudos científicos publicados sobre esta população. Pouco se conhece sobre o número de indivíduos existentes, a sua dinâmica populacional, os seus movimentos sazonais ou as principais ameaças que enfrentam. Esta ausência de informação científica limita a capacidade de desenvolver medidas eficazes de conservação e dificulta a avaliação do verdadeiro estado da população. Sem monitorização regular, torna-se difícil responder a questões fundamentais: quantos hipopótamos restam no Umbi e no Ebo? Qual é o estado de conservação desta população? Quantos hipopótamos ainda existem em Angola? E se não implementarmos medidas de conservação, até quando conseguirão sobreviver a estas pressões contínuas?
Sem estas respostas, torna-se igualmente difícil planear medidas eficazes de conservação, avaliar o impacto da caça furtiva ou garantir que uma das espécies mais emblemáticas da fauna africana continue a fazer parte da paisagem angolana. Afinal, não se pode proteger aquilo que não se conhece.
Num momento em que Angola procura afirmar-se como um destino de turismo de natureza e de aventura, conhecer e proteger populações emblemáticas como a do rio Keve deveria constituir uma prioridade nacional.
Turismo depende de conservação
Nos últimos anos, Angola tem reforçado o discurso sobre o desenvolvimento do turismo de natureza como uma oportunidade para diversificar a economia nacional. No entanto, este objectivo só poderá ser alcançado se as espécies emblemáticas e os seus habitats forem efectivamente protegidos.
É difícil promover destinos turísticos baseados na biodiversidade quando populações selvagens continuam vulneráveis à caça furtiva e quando áreas de elevado valor ecológico permanecem sem programas de monitorização, fiscalização e conservação.
Os hipopótamos do Umbi e do Ebo representam um património natural com elevado potencial ecológico, científico e turístico. A sua perda significaria não apenas um impacto para a biodiversidade angolana, mas também para as comunidades que há muito aprenderam a viver em harmonia com esta espécie.
Um animal tão admirado quanto temido
O hipopótamo é frequentemente associado à tranquilidade devido ao tempo que passa dentro de água. No entanto, trata-se de um dos mamíferos de grande porte mais perigosos do mundo, sendo responsável por centenas de mortes humanas todos os anos em África.
No Umbi e no Ebo, as comunidades conhecem bem este comportamento. Ao longo de gerações, aprenderam a respeitar os horários de actividade dos animais, a evitar determinadas zonas do rio e a adaptar as suas actividades diárias para reduzir conflitos. Esta coexistência demonstra que é possível partilhar o território quando existe conhecimento sobre a espécie e respeito pelos seus limites. Contudo, a caça furtiva ameaça não apenas os hipopótamos, mas também este equilíbrio construído ao longo do tempo entre as comunidades e a natureza.
Um apelo à acção
A situação observada no rio Keve demonstra que este é o momento de reforçar os esforços de conservação desta população.
É fundamental promover estudos científicos que permitam conhecer o estado da população de hipopótamos, reforçar a fiscalização contra a caça furtiva, garantir a responsabilização dos infractores e envolver activamente as comunidades locais na protecção desta espécie.
Conservar os hipopótamos do Umbi e do Ebo não significa apenas proteger um animal icónico mas também significa preservar um património natural único de Angola e assegurar que as futuras gerações possam continuar a encontrar estes gigantes nas águas do rio Keve, onde sempre fizeram parte da paisagem e da identidade local.
Hipopótamos no rio Keve em Outubro de 2025. Fonte: EcoAngola
A EcoAngola apela às autoridades competentes para que sejam realizados levantamentos científicos sobre a população de hipopótamos do rio Keve e reforçadas as medidas de fiscalização contra a caça furtiva. Caso existam novos dados ou esclarecimentos por parte das entidades responsáveis, este artigo será actualizado.









