“Nas terras altas do Leste de Angola (Moxico), uma manada que a ciência declarara perdida há décadas voltou a deixar rastos. A sua história é também a história de um país que ainda aprende a fazer as pazes com o seu próprio silêncio”. NGO, 2026
Os quarenta e um anos de guerra quase contínua (da luta pela independência ao conflito fratricida que só terminou em 2002), devastaram o Leste do país, fazendo desaparecer quase tudo o que se movia em áreas abertas: pessoas, animais e memórias.
Os elefantes refugiaram-se em países vizinhos como a Namíbia, o Botswana e a Zâmbia. Muitos dos que permaneceram foram abatidos, alimentando o comércio de marfim que sustentava as facções em conflito. Em 2015, um censo registou apenas 3.395 indivíduos em todo o país, uma ínfima fracção do que existia anteriormente. Em algumas áreas, a contagem foi simplesmente zero.
Mas, nos vales mais recônditos das terras altas, a cerca de 1.200 metros de altitude, algo resistiu. Algo que aprendeu a mover-se na noite, a alimentar-se no escuro e a não fazer barulho, apesar do seu tamanho descomunal. Algo que os moradores da aldeia de Tchinjanga, sem GPS nem linguagem científica, baptizaram com a única palavra que parecia fazer sentido: “fantasmas”.
Investigadores de Angola, da África do Sul e das universidades de Stanford University e University of Chicago trabalham para confirmar aquilo que os caçadores locais já sabiam há anos: os elefantes “fantasmas” do Leste de Angola existem; vivem. E a forma como sobreviveram pode ser, segundo os cientistas, única no mundo.
O HOMEM QUE SABIA ONDE PROCURAR
Durante quase uma década, os cientistas procuraram nos locais errados. Steve Boyes, ecologista sul-africano e explorador da National Geographic Society, percorreu o Leste de Angola pela primeira vez em 2015, de canoa, ao longo do rio Cuito. Regressou de mota em 2016.
Em 2019, alugou um helicóptero para sobrevoar as florestas de miombo nas cordilheiras e as turfeiras a montante de três grandes bacias hidrográficas — o Okavango Basin, o Congo Basin e o Zambezi Basin. Em todas as tentativas, o resultado foi o mesmo: nada.
Foi preciso o conhecimento de um antigo soldado cokwe, com o território gravado na memória, para mudar o rumo da investigação. Abraão António Luhoke, de 41 anos, pai de dez filhos e caçador nas terras altas do Leste, enviou em 2021 uma mensagem simples ao seu contacto na Fundação Lisima, o explorador angolano Kerllen Costa: “Acho que andam à procura no sítio errado.”
Abraão sugeriu concentrar a busca na região de Cangamba, uma aldeia nas terras altas orientais que os cientistas tinham sistematicamente ignorado.
Quando Abraão se integrou na equipa, tudo mudou. Poucos meses depois, começaram a surgir as primeiras imagens fugazes em algumas das mais de 180 armadilhas fotográficas instaladas na região. Em Setembro de 2024, alguém captou com um telemóvel um vídeo tremido, mas inequívoco: lá estavam eles, os elefantes “fantasmas” do Leste de Angola, vivos, em movimento, reais.
Estes animais pertencem a uma das duas espécies de elefantes reconhecidas em África e presentes em Angola — o elefante-de-savana (Loxodonta africana), actualmente a maior espécie de elefante vivo —, embora apresentem indícios de isolamento prolongado.
ISOLADOS HÁ SÉCULOS
A geneticista Katie Solari, da Universidade de Stanford, parceira do Projecto Lisima, analisou amostras de muco recolhidas nos rastros deixados pelos elefantes “fantasmas” e chegou a uma conclusão que a própria descreveu como perturbante: “Estes elefantes são diferentes das outras criaturas que já tenhamos sequenciado. Segundo parece, estão isolados há séculos.”
O que isso significa, em termos práticos, ainda está a ser estudado em parceria com as universidades de Stanford University e de University of Chicago.
O isolamento genético prolongado pode ter favorecido adaptações invulgares, como a capacidade de se mover em silêncio, de se alimentar sobretudo à noite e de evitar deixar rastros visíveis em áreas abertas. São comportamentos que, até agora, não foram documentados noutras populações de elefantes-da-savana africanos.
Estes elefantes vivem nas terras altas, a cerca de 1.200 metros de altitude. Não vocalizam e evitam deslocar-se em campo aberto durante o dia. Quando percebem que estão a ser seguidos (e percebem, arrastando as patas dianteiras num gesto claro de alerta) desaparecem simplesmente na floresta de miombo.
Numa das ocasiões, uma câmara de armadilha foi encontrada destruída: a árvore onde estava instalada tinha sido arrancada. Os elefantes desmontaram o equipamento sem nunca terem passado directamente diante da objectiva.
O QUE SOBREVIVEU AO SILÊNCIO
Durante anos, Angola foi descrita como um território onde os elefantes tinham desaparecido. Mas a verdade que agora emerge das florestas de miombo e das terras altas do Leste é mais complexa e, em certa medida, mais desconcertante. Os elefantes não desapareceram, adaptaram-se. Aprenderam a evitar o ser humano, a esconder-se dele e a sobreviver num país em guerra como se também eles fizessem parte invisível desse conflito.
Os “elefantes fantasmas” não são apenas uma raridade biológica ou uma curiosidade científica. São o reflexo de uma paisagem ferida que, ainda assim, resistiu. São a prova de que a vida selvagem em Angola não foi destruída, mas sim transformada. Essa transformação deixou marcas profundas: no comportamento dos animais, na memória das comunidades e na forma como o país se relaciona hoje com o seu próprio território.
Ao mesmo tempo, os dados provenientes do sul, através do monitoramento realizado pela organização Elephants Without Borders (Elefantes sem fronteiras), indicam que em 2024 foram contabilizados 5.983 elefantes no Parque Nacional do Luengue-Luiana.
Isto sugere que o regresso é possível. Onde há vigilância, cooperação e investimento, os elefantes voltam; onde há vazio, o silêncio mantém-se. Entre estas duas realidades (o reaparecimento e a ausência) desenha-se o verdadeiro mapa da conservação em Angola.
Mas talvez a questão mais difícil não seja científica nem logística, mas sim moral. Durante décadas, os elefantes aprenderam que o ser humano era uma ameaça. Reverter essa aprendizagem e fazer com que voltem a confiar em nós pode levar tanto tempo (ou mais) quanto levou a ser construída.
Fontes: National Geographic, 2026








