Durante décadas, águias, abutres, falcões, gaviões, milhafres e outras aves de rapina fizeram parte da paisagem africana. Hoje, em muitas regiões, estas aves estão a desaparecer a um ritmo preocupante.
Um estudo publicado em 2024 na revista Nature Ecology & Evolution analisou 42 espécies de aves de rapina associadas às savanas africanas e encontrou declínios em 37 delas, o equivalente a 88% das espécies avaliadas. Em algumas espécies, as reduções ultrapassaram 80% ao longo de três gerações. A investigação reuniu dados de várias décadas provenientes da África Ocidental, norte dos Camarões, Quénia e norte do Botswana, complementados por dados do atlas de aves da África do Sul. Os resultados revelam que o declínio não é uniforme em todo o continente, sendo particularmente acentuado em algumas regiões da África Ocidental.
Transectos rodoviários foram realizados na África Ocidental, no norte dos Camarões e no Quénia entre 1969–1977 e 2000–2020, e no norte do Botswana entre 1991–1995 e 2015–2016. A área sombreada a laranja indica as partes da distribuição global do bateleur (Terathopius ecaudatus) que se encontram em países onde foram realizados estes transectos e que coincidem com áreas de condições climáticas semelhantes às das rotas estudadas. A área sombreada a cinzento representa o restante da distribuição da espécie, tanto nos países abrangidos pelo estudo como nos que não foram incluídos.
Os gráficos de barras mostram a variação percentual do número de indivíduos observados por cada 100 quilómetros percorridos, dentro e fora das áreas protegidas (APs e áreas não protegidas), ao longo de três gerações da espécie, correspondentes, neste caso, a 44 anos. A linha que representa a trajectória da espécie na sua área de distribuição na África do Sul (a malva) foi obtida a partir dos registos do SABAP2 entre 2008 e 2021.
Imagem: © André Botha.
Fonte: Aves de rapina da savana africana apresentam evidências de colapso populacional generalizado e dependência crescente de áreas protegidas
Um dos dados mais preocupantes que o estudo aponta, é a diferença entre áreas protegidas e não protegidas. Das 42 espécies analisadas, 33 apresentaram declínios mais rápidos fora das áreas protegidas. Ao longo de três gerações, a redução mediana foi de cerca de 48% nas áreas não protegidas, contra 19% nas áreas protegidas.
Os investigadores alertam que, se as tendências actuais continuarem, grandes águias e abutres poderão deixar de persistir em grande parte das áreas não protegidas de África durante a segunda metade deste século.
Águias, abutres e outras aves em declínio
O estudo alerta ainda que as grandes aves de rapina (algumas águias, abutres e bateleur) estão a desaparecer mais rapidamente do que as espécies de menor porte (falcão, gavião, milhafres, entre outras).
Entre os declínios mais acentuados estão o abutre-de-Rüppell (Gyps rueppelli), com uma redução estimada de 97%, o abutre-real-africano (Torgos tracheliotos), o abutre-de-cabeça-branca (Trigonoceps occipitalis) e a águia-marcial (Polemaetus bellicosus), com cerca de 90%, e o bateleur (Terathopius ecaudatus), com 87%, ao longo de três gerações. O abutre-de-dorso-branco (Gyps africanus) também apresentou um declínio acentuado. Estes valores referem-se às áreas monitorizadas e não representam necessariamente a redução das populações globais.
A situação é especialmente preocupante entre os abutres. O abutre-de-dorso-branco, o abutre-de-Rüppell, o abutre-de-cabeça-branca e o abutre-de-capuz (Necrosyrtes monachus) estão classificados como Criticamente Ameaçados, enquanto o abutre-real-africano está classificado como Em Perigo pela Lista vermelha da IUCN.
O problema, contudo, não se limita às espécies já ameaçadas. O estudo identificou declínios superiores a 30% em 24 das 27 espécies analisadas em várias regiões, incluindo espécies que ainda estavam classificadas como Pouco Preocupantes pela IUCN. Isto mostra que uma classificação global favorável não significa que uma espécie esteja estável em todas as regiões.
O que está por detrás destes desaparecimentos?
As aves de rapina africanas enfrentam várias ameaças que, muitas vezes, actuam em conjunto. Entre as principais estão:
-Perda de habitat. A conversão de áreas naturais em terrenos agrícolas reduz e fragmenta os espaços onde estas aves encontram alimento, constroem os seus ninhos e se reproduzem.
-Redução das presas. A caça e outras formas de redução das populações de animais selvagens diminuem a disponibilidade de alimento para as aves de rapina, afectando sobretudo as espécies que dependem de determinadas presas.
-Envenenamento. O uso de venenos para controlar animais considerados problemáticos e o envenenamento de carcaças podem matar várias aves de uma só vez. Os abutres são particularmente vulneráveis porque se concentram para se alimentar de carcaças.
-Perseguição directa. Algumas aves de rapina são mortas por serem consideradas uma ameaça ao gado ou às actividades humanas. Os abutres também podem ser perseguidos porque a sua presença junto de uma carcaça pode denunciar actividades de caça furtiva.
-Infra-estruturas eléctricas. Postes e linhas eléctricas podem provocar electrocussões quando as aves pousam em estruturas perigosas, além de colisões durante o voo. O risco é maior em paisagens abertas, onde estas estruturas podem ser utilizadas como locais de pouso.
E as alterações climáticas?
As alterações climáticas podem agravar estas ameaças, ao alterar a disponibilidade de alimento, a vegetação e as condições dos habitats. No entanto, o estudo não aponta as alterações climáticas como a principal explicação para os declínios observados.
Os investigadores identificaram a perda de habitat, a redução das presas e a perseguição entre os principais factores conhecidos, mas reconhecem que ainda existem declínios que não são totalmente explicados.
As queimadas e o fogo pode alterar a vegetação e afectar as populações de presas, mas os investigadores encontraram declínios mesmo em regiões onde os incêndios são pouco frequentes/raros e a vegetação permanece relativamente intacta.
Isto mostra que o desaparecimento das aves de rapina resulta de um conjunto de pressões e não de uma única ameaça.
Angola: o que sabemos?
Angola possui uma diversidade significativa de aves de rapina, incluindo águias, abutres, milhafres, falcões e gaviões.
Entre estas espécies está o abutre-das-palmeiras (Gypohierax angolensis), presente em diferentes regiões do país e classificado globalmente como Pouco Preocupante pela IUCN.
O próprio estudo publicado em 2024 faz referência a Angola, recordando que “os abutres-das-palmeiras eram comuns em algumas partes do país”. No entanto, Angola não fez parte das principais áreas de monitorização analisadas. Por isso, os resultados do estudo não permitem afirmar que as aves de rapina angolanas estejam a sofrer os mesmos níveis de declínio observados noutras regiões de África.
Esta falta de dados de longo prazo é, por si só, uma preocupação para a conservação. Sem monitorização regular, é difícil saber quais espécies estão a diminuir, onde estão a ocorrer os maiores impactos e quais são as principais ameaças às aves de rapina em Angola.
O que pode ser feito?
Os investigadores defendem que travar o declínio das aves de rapina exige medidas de conservação dentro e fora das áreas protegidas. Entre as principais prioridades estão:
- Proteger e recuperar habitats naturais, garantindo áreas suficientes para alimentação e reprodução.
- Reforçar a gestão das áreas protegidas e, quando necessário, expandir a rede de conservação. O estudo mostra que os declínios são mais acentuados fora destas áreas.
- Tornar as infra-estruturas eléctricas mais seguras, reduzindo os riscos de electrocussão e colisão através de medidas de protecção nos postes e linhas.
- Reduzir o envenenamento e a perseguição, através de maior fiscalização, controlo do uso de substâncias tóxicas e sensibilização das comunidades.
- Proteger as populações de presas, mantendo ecossistemas capazes de sustentar os predadores.
- Investir em investigação e monitorização de longo prazo, sobretudo nos países onde ainda existem poucos dados, para compreender melhor os declínios e identificar ameaças que permanecem desconhecidas.
Proteger os céus de África
O desaparecimento das aves de rapina pode acontecer de forma silenciosa. Uma espécie que antes era comum pode tornar-se cada vez mais rara sem que a mudança seja imediatamente percebida.
Mas os dados científicos mostram que esta perda já está a acontecer em várias regiões de África. E o facto de os declínios serem mais acentuados fora das áreas protegidas mostra que a conservação não pode depender apenas dos parques e reservas. É necessário proteger também os habitats e as espécies nas paisagens onde as comunidades vivem e trabalham.
As aves de rapina desempenham funções essenciais nos ecossistemas. Águias e outras espécies predadoras ajudam a regular as populações de animais, enquanto os abutres contribuem para a remoção de carcaças e a reciclagem de nutrientes. Proteger estas aves é, por isso, também proteger o equilíbrio dos ecossistemas de que todos dependemos.
Os céus de África ainda podem continuar a ser povoados por estas espécies, mas isso dependerá das decisões tomadas hoje.
Conhecer o problema é o primeiro passo. Proteger os seus habitats, reduzir as ameaças e acompanhar as populações será essencial para que estas aves não se tornem apenas uma memória dos céus africanos.
Fontes:
https://www.nature.com/articles/s41559-023-02236-0
https://www.hawk-conservancy.org/2024/01/04/widespread-population-collapse-of-africas-savanna-raptors/
https://pt.slideshare.net/slideshow/aves-de-angola-aves-de-rapina/25435749
https://www.iucnredlist.org/search/grid
https://animalia.bio/pt/white-backed-vulture
A Eco Angola é uma organização que promove a sustentabilidade com objetivo de preservar o ambiente e promover o bem estar social.










