Nos últimos meses, a expressão “Super” El Niño” tem surgido cada vez mais nas notícias e nas previsões meteorológicas internacionais. Organizações científicas alertam para a possibilidade de este se tornar um dos episódios mais intensos já registados, com capacidade para alterar padrões de temperatura e precipitação em várias regiões do planeta.
Mas afinal, o que é o “Super” El Niño? E, mais importante ainda, o que poderá significar para Angola?
Embora este fenómeno tenha origem no Oceano Pacífico, os seus efeitos propagam-se através da atmosfera e influenciam o clima em diferentes continentes, incluindo África Austral. Para um país como Angola, onde milhões de pessoas dependem diretamente da agricultura, da pecuária e da disponibilidade de água, compreender este fenómeno é fundamental para reduzir riscos e aumentar a capacidade de adaptação.
O que é o El Niño?
O El Niño é um fenómeno climático natural que ocorre quando as águas superficiais da região central e oriental do Oceano Pacífico Equatorial aquecem acima do normal. Este aquecimento altera a circulação atmosférica global, modificando a distribuição da chuva, da temperatura e dos ventos em diferentes partes do mundo.
O que significa um "Super" El Niño?
Nem todos os episódios de El Niño têm a mesma intensidade. Quando o aquecimento das águas do Pacífico é particularmente elevado, muitas vezes é comunicado como um “Super” El Niño, uma designação utilizada para episódios excecionalmente fortes, capazes de produzir impactos climáticos mais severos e abrangentes.
Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), o episódio atualmente em desenvolvimento poderá atingir uma intensidade excecional, aumentando significativamente o risco de fenómenos meteorológicos extremos em diversas regiões do planeta.
Fonte: Unicef. Da matéria: Cavar para sobreviver, como as pessoas enfrentam a seca no Cunene.
Porque poderá Angola ser afetada?
Embora Angola esteja localizada a milhares de quilómetros do Oceano Pacífico, o clima do país é influenciado por grandes sistemas de circulação atmosférica que respondem às alterações provocadas pelo El Niño.
Historicamente, episódios fortes de El Niño têm estado associados a condições mais secas em grande parte da África Austral, particularmente durante a época chuvosa.
Ainda assim, importa salientar que estas previsões representam cenários de maior probabilidade, e não certezas. A distribuição da precipitação pode variar significativamente entre províncias e mesmo entre municípios, sendo influenciada por outros fatores climáticos regionais e locais.
O clima de Angola já está a mudar
Mesmo sem considerar o El Niño, Angola já enfrenta uma tendência clara de aquecimento. Um estudo científico recentemente publicado por investigadores angolanos (referências abaixo) concluiu que a temperatura média do país poderá aumentar entre 2 e 3 °C nas próximas décadas, enquanto a precipitação tenderá a diminuir em grande parte do território, especialmente nas províncias do sudoeste, como Namibe e Huíla. O estudo prevê ainda um aumento do número de dias consecutivos sem chuva e uma maior frequência de extremos climáticos, incluindo ondas de calor prolongadas
Evolução da temperatura no sul de Angola entre 1950 e 2024. O gráfico mostra a evolução da temperatura máxima, mínima e média nas províncias da Huíla, Namibe e Cunene, evidenciando uma tendência consistente de aquecimento ao longo das últimas sete décadas. Estes resultados demonstram que Angola já está a sentir os efeitos das alterações climáticas, um contexto que poderá ser temporariamente agravado durante episódios de El Niño. Fonte: Correia et al. (2025).
Outro estudo, centrado no sul de Angola, mostra que o aquecimento observado desde 1950 já é uma realidade. Os investigadores identificaram uma subida consistente das temperaturas, secas recorrentes e uma elevada vulnerabilidade da agricultura familiar, fortemente dependente da chuva.
Ou seja, o El Niño não é a causa das alterações climáticas, mas pode agravar temporariamente os seus efeitos num país que já enfrenta um clima cada vez mais quente e variável.
Fonte:Unicef Angola. Da matéria: Cavar para sobreviver, como as pessoas enfrentam a seca no Cunene.
Que impactos poderá ter em Angola?
Embora seja impossível prever exatamente o que acontecerá em cada província, os especialistas alertam para vários riscos.
Para a agricultura: Uma redução da precipitação poderá comprometer culturas essenciais como milho, feijão, mandioca e batata, diminuindo a produtividade agrícola e aumentando a vulnerabilidade das famílias que dependem da agricultura de subsistência.
Os estudos indicam que temperaturas mais elevadas e períodos secos mais prolongados poderão tornar várias regiões agrícolas menos favoráveis para determinadas culturas.
Projeção do impacto das alterações climáticas na aptidão agrícola em Angola entre 2041 e 2070 (cenário RCP8.5). As cores representam as regiões onde determinadas culturas poderão tornar-se mais ou menos adequadas devido ao aumento da temperatura e às alterações nos padrões de precipitação. Fonte: Correia et al. (2025).
Para os recursos hídricos: Menos chuva significa menor recarga de rios, barragens e aquíferos. Em regiões que já enfrentam escassez de água, como o sul de Angola, esta situação poderá agravar o abastecimento para consumo humano, agricultura e pecuária.
Para a pecuária: A diminuição das pastagens e da disponibilidade de água poderá afectar diretamente o gado, reduzindo a produtividade e aumentando as perdas para os criadores.
Para a biodiversidade: Temperaturas mais elevadas e vegetação mais seca aumentam o risco de incêndios/queimadas florestais, colocando maior pressão sobre ecossistemas já vulneráveis e sobre espécies ameaçadas.
Para a economia: A agricultura representa um dos sectores mais importantes para a segurança alimentar do país. Quebras de produção podem traduzir-se em aumento dos preços dos alimentos, maior dependência de importações e maiores dificuldades económicas para milhões de famílias.
Relatórios recentes também alertam que um início seco da época agrícola poderá agravar a insegurança alimentar no sul de Angola, onde muitas comunidades já enfrentam condições de elevada vulnerabilidade.
Será que Angola está preparada?
O “Super” El Niño representa mais do que um fenómeno meteorológico. É um teste à capacidade de preparação de governos, instituições e comunidades.
Fonte: Unicef. Da matéria: Cavar para sobreviver, como as pessoas enfrentam a seca no Cunene.
Investir em sistemas de alerta precoce, melhorar a gestão dos recursos hídricos, reforçar a investigação científica, apoiar a agricultura resiliente e desenvolver políticas públicas baseadas em evidências são algumas das medidas que poderão reduzir os impactos de futuros eventos extremos. Angola precisa de preparar-se antes que estes impactos aconteçam.
Independentemente da intensidade que este episódio venha a atingir, uma mensagem é clara: a adaptação às alterações climáticas já não pode ser adiada.
O conhecimento científico mostra que Angola enfrenta um futuro com temperaturas mais elevadas, maior variabilidade da precipitação e eventos extremos mais frequentes. O El Niño poderá intensificar temporariamente estes desafios, mas também representa uma oportunidade para reforçar a preparação do país.
A EcoAngola considera que este é o momento para investir na ciência, fortalecer os sistemas de monitorização climática, apoiar as comunidades mais vulneráveis e promover uma cultura de prevenção e adaptação. Quanto melhor compreendermos estes fenómenos, mais preparados estaremos para proteger as pessoas, a biodiversidade e a economia angolana.
Referências
Correia, C.D.N., Amraoui, M. & Santos, J.A. (2025). Assessment of Climate Change in Angola and Potential Impacts on Agriculture. Climate, 13(1), 12.
Correia, C.D.N., Fonseca, A., Amraoui, M., Pereira, C.A. & Santos, J.A. (2025). Long-Term Climate Trends in Southern Angola and Possible Implications in Agriculture. Climate, 13(9), 173.












