Uma expedição ao remoto Planalto de Lisima revelou que uma das últimas grandes manchas brancas da biodiversidade africana é, afinal, extraordinariamente rica.
A expedição Cassai Life Atlas, conduzida pela organização The Wilderness Project com o apoio da Fundação Lisima e da HALO Trust, produziu o inventário biológico mais detalhado alguma vez realizado nesta região do leste de Angola. O resultado foi a identificação de dezenas de espécies novas para a ciência, centenas de registros inéditos para o país e um retrato sem precedentes de um dos últimos grandes “pontos cegos” da biodiversidade em África.
O Planalto de Lisima, situado na província do Moxico, eleva-se acima da Peneplanície do Zambeze-Cubango, a cerca de 1.200 metros de altitude. As suas areias profundas filtram a água das chuvas, libertando-a de forma lenta e cristalina para quatro das maiores bacias hidrográficas do continente.
Miombo, dambos e uma paisagem de grande especificidade
A paisagem em torno de Lisima não corresponde a um ecossistema único, mas sim a um mosaico. Huntley (2023) descreve o miombo angolano como sendo uma savana mesófila que domina “a maior parte do planalto” do país, cobrindo cerca de 68% do território nacional. Caracterizado por árvores dos géneros Brachystegia, Julbernardia e Burkea, este bioma desenvolve-se sobre solos pobres em nutrientes, a altitudes entre os 1.100 e os 2.000 metros, com precipitação anual de 1.000 a 1.200 mm.
Dentro do miombo, os dambos — depressões húmidas e suavemente alagadas que funcionam como esponjas naturais — assumem uma importância particular para a biodiversidade. É neles que se concentram muitas das espécies mais raras e especializadas de anfíbios, libélulas e plantas aquáticas. A expedição registou uma diversidade de rãs de zonas húmidas que reforça a importância ecológica destas depressões como berçários e refúgios da vida selvagem.
A mistura biogeográfica encontrada nas mariposas é especialmente reveladora: espécies das florestas do Congo, da fynbos do Cabo e das matas de miombo coexistem no mesmo planalto, com uma variação notável na composição de espécies ao longo de distâncias curtas e através das linhas divisórias de bacias hidrográficas. Este padrão sugere que Lisima funciona como uma zona de contacto entre grandes regiões biogeográficas africanas, o que explica, em parte, a extraordinária concentração de espécies endémicas ou raras.
Espécies que a ciência ainda não conhecia
A expedição mobilizou especialistas em grupos tão diversos como libélulas, gafanhotos, borboletas, répteis, anfíbios, morcegos e plantas. Em poucas semanas, o trabalho de campo produziu descobertas que, noutras regiões de África, levariam anos de estudos para serem validadas.
1 | 8 libélulas inéditas — Detectadas pela primeira vez em 2019, estão agora a ser formalmente descritas. O total registrado na região chegou a 163 espécies. |
2 | 3 gafanhotos e katídeos — Três novas espécies confirmadas. O número deverá aumentar após a análise laboratorial dos espécimes recolhidos. |
3 | ~ 60 mariposas e borboletas — Estimativa preliminar de novas espécies para a ciência, podendo representar até 6% do total de mariposas registradas. |
4 | 47 répteis e anfíbios — 24 anfíbios e 23 répteis numa única expedição de estação húmida, incluindo a víbora-do-Gabão e a víbora-arbórea. |
5 | + 320 colectas botânicas — Em seis tipos de habitat distintos: matas de miombo, prados húmidos, dambos, florestas de pântano, margens fluviais e habitats rochosos. |
2 | 2 espécies de morcego – Documentadas nas grutas da região, com os seus ectoparasitas associados — revelando camadas adicionais de interacção ecológica. |
As libélulas merecem destaque especial. Angola possui uma das mais ricas faunas de odonatos do continente — em 2018, o número de espécies conhecidas no país chegou a 260. Lisima, com as suas águas claras e habitats de pântano intactos, é um centro dessa diversidade. “As areias do planalto de Lisima libertam algumas das águas doces mais limpas e regulares de África, o que se reflecte nas libélulas da região, com várias espécies altamente especializadas que não existem em mais nenhum lugar”, afirmou o Dr. Klaas-Douwe B. Dijkstra, especialista associado ao Centro de Biodiversidade Naturalis, nos Países Baixos.
As espécies que mais chamaram atenção
Muito antes de qualquer análise formal estar concluída, algumas criaturas já chamaram a atenção do mundo pela singularidade das suas características. Eis as mais marcantes:
A aranha-caranguejo coroada que brilha
Ainda sem nome científico, esta aranha-caranguejo foi fotografada a emitir uma luminescência azul intensa sob luz ultravioleta. Por que brilha? Os cientistas ainda não sabem. A fluorescência pode servir para atrair presas, comunicar com outros membros da espécie, ou ter funções que desconhecemos por completo. É uma das descobertas mais visualmente impactantes da expedição.
Solífugo diurno fluorescente
Este aracnídeo azul-cobalto, coberto de pelos e com quelíceras proeminentes, fluorescente sob luz ultravioleta — um espectáculo visual que contrasta com a sua reputação temível. Apesar da aparência ameaçadora e da rapidez de movimentos, não é venenoso. Pertence a uma subfamília de solífugos pouco conhecida em África e, embora seja improvável que se trate de uma espécie inteiramente nova, a sua presença em Lisima é um registo científico relevante.
A aranha tecelã que imita uma joaninha (Paraplectana sp. nov.)
Outra aranha potencialmente nova para a ciência, esta espécie desenvolveu uma estratégia de sobrevivência engenhosa: imita a aparência da joaninha tóxica (com padrões de pontos vermelhos e pretos) para afastar predadores. Um caso claro de mimetismo, onde parecer venenoso vale tanto quanto sê-lo.
A mariposa de asas em plumas
A mariposa-de-muitas-plumas é uma das criaturas mais estranhas do levantamento. Em vez de ter asas com membrana sólida (veias) como a maioria dos lepidópteros, as suas asas são compostas por filamentos finos, semelhantes a plumas de aves. O resultado é um insecto que parece ter saído de um conto de fadas, e que é, de facto, uma espécie já conhecida, mas raramente observada.
A mosca-morcego — parasita que nada no pelo
Encontrada nas grutas de Lisima, a mosca-morcego é um dos parasitas mais peculiares da fauna africana: vive fixada ao corpo dos morcegos, desloca-se “nadando” no pelo do hospedeiro e alimenta-se do seu sangue. A expedição registrou-a a par das espécies de morcegos que parasita, revelando uma camada adicional de interacções ecológicas no subterrâneo de Lisima.
A mosca-louva-a-deus (Sagittalata sp.)
Nem louva-a-deus, nem mosca; a mosca-louva-a-deus é na verdade uma crisopa, pertencendo à mesma ordem das formigas-leão. As suas patas anteriores “raptoriais” imitam as da louva-a-deus e são usadas para apanhar pequenas presas com rapidez. Mais surpreendente ainda: as suas larvas são predadores especializados de ovos de aranhas.
Escaravelho gigante africano (Mecynorhina confluens)
Não é uma espécie nova, mas a sua presença em Lisima é um registo notável. Este escaravelho pode atingir o tamanho da palma de uma mão. Os machos são armados com um corno bifurcado que usam em combates com rivais pela fêmea.
Louva-a-deus-flor-espinhosa
Nativa do sul e leste de África, esta louva-a-deus é uma mestra absoluta da camuflagem. O seu corpo imita com precisão surpreendente os botões florais da planta onde se instala, misturando tons de verde, roxo e bege que a tornam praticamente indistinguível da vegetação.
A expedição registou múltiplos espécimes, demonstrando que este predador de emboscada está bem estabelecido no ecossistema de Lisima. Os investigadores notam que muitos espécimes de louva-a-deus ainda aguardam análise por especialistas (o número final de espécies pode revelar-se ainda maior).
Grilo com armadura
Acredita-se que esta espécie seja recém-descoberta. Como outras da sua família, pode afastar predadores através da auto-hemorragia: expulsa deliberadamente o próprio sangue (hemolinfa) como mecanismo de defesa. Visto de perto, o seu corpo blindado, antenas alaranjadas e postura ameaçadora revelam um insecto adaptado tanto à predação como à sobrevivência em condições extremas.
A víbora-gabão — as presas mais longas do mundo
Já conhecida da ciência, a víbora-gabão é uma das cobras mais impressionantes do planeta: mestre em camuflagem, possui as presas mais longas de qualquer serpente venenosa (até 5 cm). O seu registo em Lisima é mais um sinal da integridade ecológica desta região, onde predadores de topo e espécies sensíveis ainda persistem.
Víbora de arbusto variável (Atheris squamigera)
Altamente venenosa e arborícola, alimenta-se de rãs de árvore. O seu registo em Lisima, com pouquíssimos precedentes angolanos (todos no norte), confirma a influência das florestas do Congo nesta região de transição biogeográfica.
Vegetação colectada
Além da fauna, a expedição realizou mais de 320 colectas botânicas em seis habitats distintos: bosque de miombo, pastagem húmida, dambos, floresta pantanosa, margens ribeirinhas e habitats rochosos. Ecossistemas que, noutras regiões de África, se encontram separados por centenas de quilómetros coexistem em Lisima numa área relativamente reduzida. Em vez de um ambiente uniforme, o planalto revelou-se um mosaico de habitats, onde cada ecossistema sustenta comunidades biológicas próprias e zonas de transição que favorecem o intercâmbio biogeográfico e contribuem para a elevada diversidade de espécies da região.
Os botânicos ligaram ainda a flora às mariposas: 25 espécies de mariposas geómetras (família Geometridae) foram associadas a 19 plantas-hospedeiras de 13 famílias botânicas, e oito dessas mariposas podem ser novas para a ciência.
Assim, a riqueza de Lisima não está apenas na quantidade de espécies registadas, mas também na forma como o território junta elementos de diferentes origens ecológicas. Esta sobreposição de habitats e linhagens biogeográficas cria condições únicas para a existência de espécies especializadas, muitas delas ainda desconhecidas da ciência.
Um legado científico em construção
O Cassai Life Atlas não está isolado. Integra uma série de expedições iniciadas pelo National Geographic Okavango Wilderness Project que, ao longo da última década, vêm mapeando progressivamente as nascentes dos grandes rios do sul de África. Em conjunto, estas campanhas já confirmaram mais de 70 novas espécies para a ciência, identificaram cerca de 300 que aguardam estudos taxonómicos mais aprofundados e acrescentaram centenas de registos anteriormente desconhecidos em Angola.
O Dr. Piotr Naskrecki, director do Laboratório de Biodiversidade E.O. Wilson, em Gorongosa, sublinhou o paradoxo que define esta região: “Durante a nossa expedição, notei a baixa abundância de muitos grupos de animais — um facto compreensível dado o baixo teor de nutrientes dos solos. O que me surpreendeu foi o número de novas espécies de insetos que consegui recolher, algumas das quais são provavelmente endémicas da região.”
A importância ecológica de Lisima ganhou recentemente um reconhecimento internacional com a classificação de Lisima Lya Mwono como o primeiro Sítio Ramsar de Angola, estatuto atribuído a zonas húmidas de importância global pela Convenção de Ramsar. A designação reforça aquilo que o Cassai Life Atlas vem demonstrando cientificamente através das suas expedições: Lisima não é apenas uma área rica em biodiversidade, mas um dos grandes reguladores hidrológicos da África Austral. A protecção destas nascentes torna-se ainda mais relevante num território onde a vida selvagem começa lentamente a regressar após décadas de guerra, como os elefantes que, durante anos, aprenderam a mover-se em silêncio para sobreviver à caça e ao conflito armado. Hoje, à medida que o isolamento diminui e a pressão humana aumenta, Lisima representa simultaneamente um refúgio biológico, uma reserva estratégica de água e um símbolo da capacidade de regeneração dos ecossistemas angolanos.
Fonte: The Wilderness Project — Cassai Life Atlas, 2026.
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