Os mangais são ecossistemas costeiros tropicais de elevada importância ecológica, compostos por espécies vegetais halófitas adaptadas a condições ambientais extremas, como a elevada salinidade, a baixa disponibilidade de oxigénio nos sedimentos e a influência periódica das marés. Para sobreviverem nesses ambientes, essas espécies desenvolveram adaptações morfofisiológicas específicas, destacando-se as raízes pneumatóforas, estruturas especializadas que permitem a captação de oxigénio directamente da atmosfera, possibilitando a sobrevivência em solos encharcados e pobres em oxigénio.
Os Mangais desenvolvem-se predominantemente em regiões tropicais e subtropicais, ocupando estuários, deltas de rios, lagoas costeiras e outras zonas de transição entre os ambientes terrestre e marinho, onde ocorre a mistura das águas doces provenientes dos rios com as águas salgadas dos oceanos.
Em Angola, os mangais encontram-se distribuídos ao longo da faixa costeira de sete províncias: Cabinda, Zaire, Bengo, Luanda, Icolo e Bengo, Cuanza Sul e Benguela.
Serviços ecossistêmicos dos mangais
Os mangais são ecossistemas costeiros de elevado valor ecológico, económico e social. Prestam diversos serviços ecossistémicos essenciais, contribuindo para a conservação da biodiversidade, a protecção das zonas costeiras, a segurança alimentar e os meios de subsistência das comunidades costeiras.
Conservação da biodiversidade
Os mangais constituem habitat, refúgio e área de reprodução para milhares de espécies de peixes, crustáceos, moluscos, aves, répteis e mamíferos. Muitas espécies de importância ecológica e económica dependem destes ecossistemas durante parte do seu ciclo de vida, razão pela qual os mangais são frequentemente designados como os “berçários da vida marinha”. Estima-se que mais de 1 500 espécies estejam associadas aos mangais em todo o mundo.
Os mangais actuam como barreiras naturais que ajudam a proteger as zonas costeiras. As suas raízes estabilizam os sedimentos, reduzem a erosão costeira e atenuam a energia das ondas e das tempestades, diminuindo o risco de inundações e outros impactos nas comunidades costeiras. Além disso, funcionam como filtros naturais, retendo sedimentos, nutrientes e alguns poluentes antes de estes chegarem aos recifes de coral e aos prados marinhos, contribuindo para a melhoria da qualidade da água e para a conservação destes ecossistemas
Benefícios para as comunidades
Os mangais fornecem recursos naturais importantes, como peixe, crustáceos, moluscos, madeira e outros produtos florestais, sustentando a segurança alimentar, o rendimento e os meios de vida de milhões de pessoas que vivem em zonas costeiras. Além disso, apoiam actividades como a pesca, o turismo e a protecção das infra-estruturas costeiras.
Os mangais como aliados no combate às alterações climáticas
Além dos serviços ecossistêmicos que prestam, os mangais desempenham um papel fundamental na mitigação e adaptação às alterações climáticas. Juntamente com os prados marinhos e os pântanos salgados, integram os chamados ecossistemas de carbono azul.
Carbono azul
O termo carbono azul refere-se ao carbono capturado e armazenado pelos ecossistemas costeiros e marinhos. Nos mangais, o dióxido de carbono (CO₂) é removido da atmosfera através da fotossíntese e armazenado na biomassa das árvores e, sobretudo, nos solos alagados ricos em matéria orgânica, onde pode permanecer durante séculos ou mesmo milénios quando o ecossistema permanece intacto.
Embora ocupem menos de 1% da área das florestas tropicais, os mangais estão entre os ecossistemas com maior densidade de carbono do planeta. Em média, armazenam cerca de 1000 toneladas de carbono por hectare (biomassa e solo) e podem armazenar duas a quatro vezes mais carbono por hectare do que a maioria das florestas terrestres, sendo a maior parte desse carbono retida nos seus solos.
A destruição dos mangais e as alterações climáticas
Quando os mangais são degradados ou destruídos, o carbono acumulado durante séculos é libertado para a atmosfera sob a forma de dióxido de carbono e outros gases com efeito de estufa, contribuindo para o agravamento das alterações climáticas. As emissões resultantes da perda de mangais representam uma parte significativa das emissões globais provenientes da desflorestação, tornando a sua conservação uma importante solução baseada na natureza para a mitigação climática.
Mercado de carbono
A elevada capacidade dos mangais para capturar e armazenar carbono permite que projectos de conservação, restauração e gestão sustentável destes ecossistemas sejam integrados no mercado de carbono. Quando demonstram, de forma mensurável e verificada, a redução ou remoção de emissões de gases com efeito de estufa, estes projectos podem gerar créditos de carbono. A comercialização destes créditos pode contribuir para o financiamento da conservação e recuperação dos mangais, promovendo simultaneamente benefícios económicos e sociais para as comunidades locais, desde que os projectos cumpram os requisitos técnicos e os padrões internacionais de certificação.
O potencial de Angola
Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), os mangais da África Central, incluindo os de Angola, estão entre os ecossistemas de mangal mais ricos em carbono do mundo. O relatório estima que a destruição de um hectare de mangal intacto nesta região pode libertar cerca de 1 299 toneladas de dióxido de carbono, evidenciando a importância da sua conservação para a mitigação das alterações climáticas. Este elevado potencial reforça igualmente as oportunidades de desenvolvimento de projectos de carbono azul e de financiamento para a conservação destes ecossistemas.
Ameaças aos mangais
Apesar da sua importância ecológica, climática e socioeconómica, os mangais continuam a desaparecer devido, sobretudo, às actividades humanas. A conversão destas áreas para fins urbanos, agrícolas, industriais e aquícolas, aliada à poluição, à exploração excessiva dos recursos naturais e aos impactos das alterações climáticas, tem provocado a degradação destes ecossistemas em várias regiões do mundo.
Principais causas da degradação
A principal ameaça aos mangais é a pressão humana sobre as zonas costeiras. Entre as causas mais frequentes destacam-se:
- Expansão urbana e construção de infra-estruturas;
- Conversão de mangais para agricultura, salinas e aquicultura;
- Exploração de madeira e lenha;
- Alterações no regime natural das águas, provocadas por barragens, estradas e outras infra-estruturas;
- Poluição por resíduos sólidos, águas residuais, derrames de petróleo e outros contaminantes;
Impactos das alterações climáticas, como a subida do nível do mar e o aumento da frequência de fenómenos meteorológicos extremos
A situação em Angola
Em Angola, os mangais enfrentam diversas pressões resultantes do crescimento urbano e do desenvolvimento económico, muitas vezes sem o devido ordenamento ambiental. Em várias zonas costeiras, estes ecossistemas são afectados pela deposição de resíduos sólidos, descarga de águas residuais, derrames de petróleo, extracção de lenha e madeira, abertura de estradas e alterações do regime hídrico dos estuários, factores que comprometem a sua conservação.
Obras de construção de estradas em zona de mangal do Zaire. Fonte: EcoAngola (S.D) – 2026
Consequências da degradação
A degradação dos mangais provoca a perda de importantes serviços ecossistémicos. Entre as principais consequências destacam-se a redução da biodiversidade, a diminuição das populações de peixes, crustáceos e moluscos, o aumento da erosão costeira e do risco de inundações, a degradação da qualidade da água e a libertação para a atmosfera do carbono armazenado na vegetação e nos solos. Estes impactos afectam igualmente os meios de subsistência das comunidades costeiras, que dependem dos mangais para a pesca, a obtenção de recursos naturais e a protecção das suas zonas habitadas.
Conclusão
Os mangais são ecossistemas essenciais para a biodiversidade, a protecção das zonas costeiras e o combate às alterações climáticas. Além de reduzirem a erosão e os impactos das tempestades, armazenam grandes quantidades de carbono e apoiam os meios de subsistência de muitas comunidades costeiras. Apesar da sua importância, enfrentam ameaças como a expansão urbana, a agricultura, a exploração excessiva dos recursos naturais, a poluição e as alterações climáticas, que contribuem para a sua degradação.
A sua conservação depende de uma gestão sustentável, da recuperação das áreas degradadas, do reforço da fiscalização e da educação ambiental. Proteger os mangais é essencial para preservar a biodiversidade, proteger as comunidades costeiras e contribuir para a mitigação das alterações climáticas.
Referências Bibliográficas
EALUSÓFONO. Distribuição dos mangais em Angola. [S.l.]: EA Lusófono, 2025. Disponível em: https://www.ealusofono.org/wp-content/uploads/2025/07/PD-EIXO1-1037378.pdf. Acesso em: 14 jul. 2026.
ECOANGOLA. A importância dos mangais para o mundo. Luanda: EcoAngola, [s.d.]. Disponível em: https://ecoangola.com/a-importancia-dos-mangais-para-o-mundo/. Acesso em: 14 jul. 2026.
ECOANGOLA. As diferentes utilidades dos recursos dos mangais. Luanda: EcoAngola, [s.d.]. Disponível em: https://ecoangola.com/as-diferentes-utilidades-dos-recursos-dos-mangais/. Acesso em: 14 jul. 2026.
INTERGOVERNMENTAL PANEL ON CLIMATE CHANGE (IPCC). Chapter 5: Changing Ocean, Marine Ecosystems, and Dependent Communities. In: Special Report on the Ocean and Cryosphere in a Changing Climate (SROCC). Genebra: IPCC, 2019. Disponível em: https://www.ipcc.ch/srocc/chapter/chapter-5/. Acesso em: 14 jul. 2026.
INTERGOVERNMENTAL OCEANOGRAPHIC COMMISSION OF UNESCO (IOC-UNESCO). Blue Carbon. Paris: UNESCO, [s.d.]. Disponível em: https://www.ioc.unesco.org/en/blue-carbon. Acesso em: 14 jul. 2026.
L’ORÉAL PORTUGAL. A importância dos mangais para a conservação ambiental. Lisboa: L’Oréal Portugal, [s.d.]. Disponível em: https://www.loreal.com/pt-pt/portugal/blog/planeta/a-importancia-dos-mangais-para-a-conservacao-ambiental/. Acesso em: 14 jul. 2026.
MENIA. Monografia da Menia. [S.l.: s.n.], [s.d.]. Disponível em: https://pt.scribd.com/document/806144407/MONOGRAFIA-DA-MENIA. Acesso em: 14 jul. 2026.
PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O MEIO AMBIENTE (PNUMA). Mangrove forests. Nairobi: UNEP, [s.d.]. Disponível em: https://www.unep.org/topics/ocean-seas-and-coasts/blue-ecosystems/mangrove-forests. Acesso em: 14 jul. 2026.
PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O MEIO AMBIENTE (PNUMA). Carbon Pools and Multiple Benefits of Mangroves in Central Africa: Assessment for REDD+. Nairobi: UNEP, 2014. Disponível em: https://www.unep.org/resources/report/carbon-pools-and-multiple-benefits-mangroves-central-africa-assessment-redd. Acesso em: 14 jul. 2026.
SEQUESTRO e estoque de carbono em manguezais. Revista Geografia (PUC Minas), Belo Horizonte, [s.d.]. Disponível em: https://periodicos.pucminas.br/geografia/article/download/32597/21993/124190. Acesso em: 14 jul. 2026.
A Eco Angola é uma organização que promove a sustentabilidade com objetivo de preservar o ambiente e promover o bem estar social.










