Os mangais estão entre os ecossistemas costeiros de maior importância ecológica e socioeconómica em Angola. Adaptadas a ambientes salinos e à influência das marés, estas florestas contribuem para a estabilização da linha de costa e podem reduzir a força das ondas, das tempestades e das inundações costeiras, ajudando a diminuir a erosão. São também importantes para a conservação da biodiversidade, proporcionando habitat, abrigo e locais de alimentação e reprodução para diversas espécies. Além disso, armazenam carbono na vegetação e, sobretudo, nos sedimentos, e fornecem recursos importantes para os meios de subsistência das comunidades costeiras.
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Os mangais angolanos distribuem-se sobretudo ao longo da costa norte e centro do país, desde Cabinda até Benguela. Ocorrem em Cabinda, Zaire, Bengo, Luanda, Icolo e Bengo, Cuanza-Sul e Benguela, estando particularmente associados a estuários, desembocaduras de rios, baías e outras zonas costeiras onde existem condições adequadas ao seu desenvolvimento. Entre as áreas de maior importância encontram-se os sistemas associados aos rios Congo e Cuanza. A região de Benguela, nomeadamente na zona do rio Catumbela, é apontada como o limite meridional conhecido da ocorrência de mangais na costa angolana.
Distribuição de mangais em Angola. Fonte: UNEP-WCMC — Global Mangrove Distribution Map
Os mangais de Angola enfrentam diferentes pressões humanas e ambientais que podem provocar a degradação, fragmentação e perda destes ecossistemas, como a desflorestação e corte de mangais, expansão urbana e ocupação costeira, conversão e aterro de zonas húmidas, poluição e acumulação de resíduos, alteração dos canais e da circulação da água, fragmentação do habitat, queimadas, entre outras.
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Estas ameaças já são bastante conhecidas, e nos últimos anos, os mangais ganharam uma visibilidade crescente no discurso ambiental, tanto a nível nacional como internacional. E não é difícil perceber porquê: à medida que se reconhece o papel destes ecossistemas na protecção costeira, na biodiversidade e no armazenamento de carbono, aumenta também o interesse político, institucional e financeiro pela sua conservação.
Em Angola, esta atenção também tem vindo a crescer. Mas é precisamente aqui que devemos fazer uma pergunta incómoda: estamos a falar cada vez mais de proteger os mangais porque estamos, de facto, a querer protegê-los, ou porque a conservação dos mangais se tornou uma prioridade internacional capaz de mobilizar financiamento e projectos? O problema é que visibilidade, financiamento e número de projectos não são sinónimos de conservação efectiva. E é precisamente essa diferença que merece ser questionada.
Porque nos devemos questionar?
Como se sabe, actualmente, o mundo está voltado para as questões relacionadas com a crise climática. Nas últimas décadas, tornou-se evidente que a degradação ambiental compromete também o bem-estar humano, o desenvolvimento económico e a segurança climática. Como consequência, a conservação passou a ocupar um lugar de maior destaque nas agendas internacionais, estando cada vez mais presente nos diversos sectores da sociedade. Tanto o sector público como o privado são chamados a rever os seus métodos de actuar e produzir, bem como a disponibilizar recursos para acções de preservação e recuperação de diferentes ecossistemas. Visto que, a nível mundial, os mangais são reconhecidos como ecossistemas importantes no combate às alterações climáticas, é fácil perceber por que razão têm recebido cada vez mais atenção e financiamento. São também frequentemente associados ao chamado carbono azul e aos mecanismos relacionados com créditos de carbono, que é outro assunto que ganhou grande destaque nos últimos anos.
É aqui que entram os diversos financiamentos para a recuperação de mangais de que temos ouvido falar. Financiamentos que deveriam ser utilizados não só para recuperar estes ecossistemas, mas também para combater as causas que continuam a ameaçá-los e destruí-los. Apesar disso, é legítimo questionar se estes esforços estão a produzir uma protecção realmente eficaz. Vemos diversas actividades de plantação de mangais, criação de viveiros e campanhas de sensibilização das populações, mas será que estas acções estão, de facto, a resultar numa recuperação consistente dos ecossistemas? Parece existir, por vezes, um vai e vem nesta protecção, em que os avanços são temporários e a atenção diminui quando o assunto deixa de estar no centro das atenções ou do escrutínio público.
Segundo o artigo científico publicado na revista Remote Sensing, com base nos dados do Global Mangrove Watch (GMW) derivados de imagens de satélite, a extensão dos mangais em Angola apresentou algumas oscilações nos anos analisados, mas revelou uma tendência geral de diminuição. A área estimada passou de 293,25 km² em 1996 para 289,81 km² em 2007, uma redução de 3,44 km². Entre 2007 e 2008, diminuiu mais 1,45 km², passando para 288,36 km²; em 2009, aumentou ligeiramente 0,33 km², para 288,69 km², mas voltou a diminuir em 2010, para 288,45 km². Entre 2010 e 2015, registou-se uma nova redução de 0,52 km², seguida da maior queda da série entre 2015 e 2016, de 2,38 km², passando de 287,93 km² para 285,55 km². Em 2017, houve um pequeno aumento de 0,12 km², mas em 2018 a área voltou a diminuir 2,09 km², para 283,58 km². Em 2019, aumentou 0,81 km², para 284,39 km², antes de voltar a diminuir 0,82 km² em 2020, ficando em 283,57 km².
Considerando os anos disponíveis na série, Angola registou, assim, uma redução estimada de 9,68 km² de mangais entre 1996 e 2020, equivalente a aproximadamente 3,30% da área estimada em 1996. Apesar de alguns períodos de recuperação, os dados indicam uma tendência geral de diminuição da extensão dos mangais em Angola.
Ainda através da própria plataforma de monitorização Global Mangrove Watch (GMW), é possível ver essa mesma oscilação entre os anos de 2020 e 2025. É importante, contudo, referir que estas plataformas de monitorização utilizam dados obtidos remotamente e através de satélite, pelo que não apresentam uma precisão de 100%. Ainda assim, são ferramentas científicas importantes para acompanhar a evolução dos mangais, e as actualmente mais aceites pela comunidade científica, sobretudo perante a escassez de dados nacionais sistemáticos e comparáveis (que estejam disponíveis).
Apesar das muitas actividades de plantação, a comunicação destas iniciativas destaca frequentemente quantas mudas ou sementes foram plantadas, mas raramente informa quantas sobreviveram, se as áreas estão realmente protegidas ou se as causas da degradação foram eliminadas. Esta deveria ser uma preocupação dos financiadores. Se o objectivo é realmente recuperar estes ecossistemas ou, pelo menos, travar a sua degradação, deveria existir maior rigor e controlo, não apenas sobre as acções realizadas, mas principalmente sobre os seus resultados. E não estamos a falar apenas de quantas mudas foram plantadas ou quantos viveiros foram criados: precisamos de saber quantas plantações tiveram sucesso, quantas mudas sobreviveram, quanto de área foi efectivamente recuperada, que áreas registaram uma redução da degradação e das pressões que as afectam, quantas populações encontraram fontes alternativas de subsistência e reduziram a exploração dos mangais, quantas áreas deixaram de ser destruídas para construções indevidas, entre outras questões.
Porque é que não existe maior pressão para obter e divulgar estes dados? Será que, em alguns casos, existe o risco de privilegiarmos indicadores fáceis de comunicar em detrimento da avaliação dos impactos reais? Será que algumas destas acções acabam por se resumir a números superficiais utilizados para embelezar relatórios e demonstrar resultados que nem sempre correspondem à realidade no terreno? Ou será que estes dados são efectivamente recolhidos, mas simplesmente não chegam ao conhecimento público? E, se existem, onde estão? Que metodologias foram utilizadas para os obter? Quem faz o controlo? Como podemos nós, enquanto público, acompanhar estes processos e verificar a credibilidade dos dados apresentados? Estas perguntas tornam-se ainda mais importantes quando existem financiamentos, projectos e campanhas, que anunciam a recuperação destes ecossistemas, mas as denúncias e preocupações relacionadas com a degradação dos mangais continuam a surgir a um ritmo alarmante. O que se passa, de facto? A quem devemos questionar e cobrar? A quem devemos pedir prestação de contas?
Não se pretende desvalorizar as acções de plantação, campanhas de sensibilização ou advocacia. Estas iniciativas são importantes para divulgar o problema e chamar a atenção para a necessidade de proteger estes ecossistemas. O que se questiona é a efectividade dessas acções, sobretudo quando os resultados concretos não são suficientemente claros ou quando a realidade no terreno parece contradizer os avanços anunciados. Estas acções podem representar contributos importantes, mas parecem não ser suficientes para travar as diferentes pressões sobre os mangais. É neste contexto que tanto os financiadores como os executores dos projectos de recuperação devem reflectir sobre outras medidas que possam produzir um impacto maior e mais duradouro.
Mangais jovens de mudas que sobreviveram. Fonte: EcoAngola 2026
Talvez seja também o momento de repensar a forma como avaliamos o sucesso destes projectos. A EcoAngola considera que qualquer iniciativa de recuperação ou conservação de mangais deveria ir além da contabilização do número de mudas plantadas ou de campanhas realizadas, passando a reportar indicadores de impacto ecológico e social que permitam avaliar a sua verdadeira eficácia. Entre estes indicadores poderiam incluir-se, por exemplo:
- A taxa de sobrevivência das mudas após um, três e cinco anos;
- A área de mangal efectivamente recuperada ou restaurada (com mapas a demonstrar estas diferenças);
- A redução das principais pressões e ameaças sobre os ecossistemas, como o corte ilegal, a ocupação desordenada, a poluição ou a destruição do habitat;
- A capacidade de armazenamento de carbono recuperada ou mantida, sempre que tecnicamente possível;
- O grau de envolvimento e benefício das comunidades locais, incluindo a adopção de meios de subsistência sustentáveis e a redução da dependência da exploração dos mangais;
- A existência de um programa de monitorização contínua, que permita acompanhar a evolução dos ecossistemas e disponibilizar informação transparente ao público e aos financiadores
É importante medir o esforço investido, mas também importa medir os resultados alcançados. Só assim será possível compreender se os recursos aplicados estão realmente a contribuir para a recuperação destes ecossistemas e para a melhoria das condições de vida das comunidades que deles dependem.
Acima de tudo, é necessário que exista um interesse real em proteger estes ecossistemas. Que seja mais do que uma questão económica ou de comunicação e visibilidade positiva. Que seja mais do que uma oportunidade de financiamento ou uma componente dos mecanismos relacionados com créditos de carbono. É necessário perceber que, se não protegermos estes e todos os restantes ecossistemas, estaremos a comprometer o nosso próprio futuro. Porque, sem interesse real em proteger os mangais, dificilmente teremos resultados reais. E, se nada mudar, estes ecossistemas poderão continuar a degradar-se até serem cada vez mais raros. Ou, mais grave ainda, até se tornarem apenas uma memória.
Conservar mangais não é plantar árvores. É garantir que estes ecossistemas continuam vivos, funcionais e capazes de proteger as pessoas, a biodiversidade e o clima.
Referências bibliográficas
- UNESCO-IOC. (s.d.). Blue Carbon. Intergovernmental Oceanographic Commission of UNESCO. https://www.ioc.unesco.org/en/blue-carbon
- (s.d.). Coastal Blue Carbon: Methods for Assessing Carbon Stocks and Emissions Factors. United Nations Environment Programme. https://www.unep.org/resources/publication/coastal-blue-carbon-methods-assessing-carbon-stocks-and-emissions-factors
- Bunting, P., Rosenqvist, A., Lucas, R. M., Rebelo, L.-M., Hilarides, L., Thomas, N., Hardy, A., Itoh, T., Shimada, M., & Finlayson, C. M. (2022). Global mangrove extent change 1996–2020: Global Mangrove Watch version 3.0. Remote Sensing, 14(15), 3657. https://www.mdpi.com/2072-4292/14/15/3657
- Global Mangrove Watch. (s.d.). Angola – Mangrove habitat extent and change. Global Mangrove Watch. Global Mangrove Watch – Angola. https://www.globalmangrovewatch.org/country/AGO?bounds=[[7.484407433313152,-27.234237270575036],[58.46255305887084,15.184984521591062
Erica Tavares é Bióloga Ambiental e Ecologista, Directora Executiva e Co-fundadora da EcoAngola (ONG sem fins lucrativos), Sócia e Técnica Líder na EcoJango (consultora privada). Dedica-se ao desenvolvimento de iniciativas que promovem a conservação da biodiversidade, a educação ambiental, a investigação científica e a acção climática, contribuindo para um impacto ambiental e social positivo em Angola.
Co-fundadora e Coordenadora do Departamento de Ciência e Educação da EcoAngola, estudante de ciências do ambiente pela Universidade Aberta de Lisboa









