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Mamíferos em recuperação desigual: o triste legado da guerra no Parque Nacional do Bicuar

by Eco Angola

A recuperação da vida selvagem em Angola, após décadas de conflito armado, continua a ser um desafio mesmo passados mais de vinte anos de paz efectiva. São múltiplos os factores que explicam este processo lento e desigual. Um estudo recente publicado na ScienceDirect de Curveira-Santos et al (2025), realizado no Parque Nacional do Bicuar (PNB) e com forte participação de biólogos angolanos, lança nova luz sobre este fenómeno. Os seus resultados mostram que, embora haja sinais positivos, a recuperação da fauna — em particular dos mamíferos — permanece assimétrica. Algumas espécies dão indícios de aumento, outras lutam para regressar, e várias parecem ter estagnado, apresentando valores médios de ocupação moderadamente baixos. Este padrão pode criar um desequilíbrio ecológico na região.

O Parque e as suas características

Localizado no sudoeste de Angola, na província da Huíla, o Parque Nacional do Bicuar foi estabelecido como reserva de caça em 1938 e elevado à categoria de Parque Nacional em 1964, conforme consta no artigo ScienceDirect. Cobrindo uma área de aproximadamente 6.900 km², o parque é historicamente conhecido pelas suas matas de miombo, matagais de Baikiaea e savanas arenosas, situando-se numa zona de transição ecológica vital (Biodiversidade de Angola, 2019).  

Matas convertidas em savanas arbustivas por repetidos fogos intensos no Parque Nacional do Bicuar. As queimadas começam normalmente nas mulolas de onde se espalham para as matas circundantes. Mendelsohn e Mendelsohn (2018).

Segundo dados históricos compilados na obra Biodiversidade de Angola, o Bicuar era, antes de 1975, um santuário vibrante, albergando populações robustas de grandes herbívoros e carnívoros. No entanto, durante o longo período de instabilidade que o país atravessou, a infraestrutura de protecção colapsou, deixando o parque vulnerável à caça furtiva intensa, à práticas constantes de queimadas e à ocupação humana desordenada.

Miombo woodland in central Bicuar
Vegetation of grassy and shrubby vegetation common in some drainage areas of northern Bicuar

Biodiversidade do parque: O que perdemos e o que resta

Historicamente, o PNB acolhia manadas significativas de elefantes-de-savana (Loxodonta africana), bois-cavalos (Connochaetes taurinus), gungas (Tragelaphus oryx) e a icónica impala-de-face-negra (Aepyceros melampus petersi) (Biodiversidade de Angola, 2019). Porém, levantamentos recentes de Overton et al (2017) também citado no artigo de Curveira-Santos et al (2025) mostram um cenário profundamente alterado.

Algumas perdas são irreversíveis:

  • O rinoceronte-preto encontra-se extinto localmente.
  • A impala-de-face-negra não foi detectada em levantamentos recentes, temendo-se a sua extirpação local (havendo apenas suspeitas de pequenos núcleos no leste do Iona).
  • O leão (Panthera leo) parece ter desaparecido ou subsistir em números tão reduzidos que dificilmente sustentam uma população viável sem reforço externo.

Segundo Overton et al (2017), a comunidade de mamíferos de médio e grande porte do PNB é constituída por 32 espécies confirmadas — uma redução significativa face às 41 registadas historicamente, traduzindo-se numa perda de cerca de 22% da fauna mamífera original do parque. No entanto, a comunidade focal no estudo de Curveira-Santos et al (2025), incidiu-se apenas sobre 27 espécies.

Apesar do declinio na riqueza específica da comunidade, emergem sinais de resiliência. Os resultados divulgados no referido estudo dão conta de que, não obstante a ocupação média da comunidade de mamíferos no PNB ser moderadamente baixa (0,30), o bambi (Sylvicapra grimmia) destaca-se como o mamífero com maior distribuição, apresentando uma ocupação de 0,88 (presente em quase 88% da área estudada). O elefante africano (Loxodonta africana) exibe a segunda maior prevalência, com uma ocupação média-alta de 0,65.

Ambos os herbívoros demonstraram uma notável resistência, conseguindo sobreviver e disseminar-se pelo parque face à pressão extrema do passado. A aparente discrepância entre a baixa abundância estimada por Overton et al (2017) — cerca de apenas 70 elefantes — e a alta ocupação reportada por Curveira-Santos et al (2025) é facilmente compreensível: devido à sua elevada mobilidade, as manadas de elefantes não permanecem estáticas. Ao percorrerem grandes distâncias em busca de água e alimento, acabam por utilizar praticamente toda a extensão do parque.

A palanca-ruana (Hippotragus equinus), que é descrita no livro Biodiversidade de Angola como sendo o grande antílope mais comum e mais amplamente distribuído em Angola, encontrando‑se historicamente ausente apenas em Cabinda e no sudoeste árido – a sua média de ocupação no PNB é de 0,41, conforme consta no estudo de Curveira-Santos et al (2025).

Bambi
palanca-ruana do PN do Bicuar
Elefante

Quanto aos predadores maiores, cuja a média de ocupação é de 0,36 destacam-se:
A hiena-malhada (Crocuta crocuta), se destaca com 0,42 de ocupação média, sendo o predador mais prevalente, sendo avistado em quase 50% da extensividade da área de estudo;

Imagem de armadilhas fotográficas de hienas do PNB. Fonte: Biopama

O leopardo (Panthera pardus) com  0,40 de ocupação média, acaba por ser tão prevalente quanto a hiena, estando apenas ligeiramente abaixo da mesma;

Imagem de armadilhas fotográficas de leopardos do PNB. Fonte: Biopama

O cão-selvagem-africano (Lycaon pictus) (vulgos mabecos) com uma média de ocupação de 0,27, seguem como a terceira espécie predadora mais distribuída, sendo prevalente em pouco mais de um quarto da área do estudo reportado.

Imagem de armadilhas fotográficas de hienas do PNB. Fonte: Biopama

A problemática da recuperação desigual dos mamíferos

O estudo de Curveira-Santos et al (2025) demonstra que a recuperação não depende apenas do número total de indivíduos, mas sim da estrutura ecológica da comunidade. Assim, a recuperação no PN do Bicuar é enviesada pois:

  • Enquanto espécies pequenas, generalistas e com reprodução rápida se recuperam com maior facilidade,
  • a megafauna — como elefantes e grandes herbívoros — apresenta recuperação muito mais lenta, reflexo directo da caça intensiva para obtenção de carne e marfim durante a guerra, e
  • carnívoros de topo continuam a enfrentar limitações severas devido à baixa densidade de presas e conflitos persistentes entre comunidades locais e fauna bravia.

O estudo salienta ainda que factores ambientais e de gestão influenciam fortemente o regresso das espécies, sobretudo factores como:

  • Distribuição de pontos de água, crucial para a persistência da megafauna;
  • Biomassa da vegetação, afectada por queimadas recorrentes.

Sem grandes herbívoros e sem predadores de topo, as funções ecológicas essenciais como: o controlo de herbívoros, a renovação da vegetação e a modelação da paisagem ficam comprometidas. Isto amplifica o avanço da mata densa e altera a savana, dificultando ainda mais o retorno das espécies desaparecidas.

Conclusão

A recuperação de um ecossistema profundamente afectado por décadas de conflito não ocorre automaticamente após o cessar das hostilidades. O Parque Nacional do Bicuar é um exemplo claro desta realidade. Ao constatarmos que algumas perdas já não podem ser revertidas e que várias espécies — incluindo aquelas que desempenham funções ecológicas essenciais — enfrentam dificuldades em recuperar os seus níveis históricos de abundância e ocupação, torna-se imperativo despertar a nossa consciência e responsabilidade colectiva para com a natureza.

O “nós” não se limita aos seres humanos: inclui todos os componentes vivos e não-vivos que sustentam a vida na Terra. Por isso, os esforços de conservação devem agora concentrar-se no que ainda persiste, assegurando a sobrevivência e a expansão das espécies remanescentes. Entre as acções prioritárias destacam-se:

  • reforço da fiscalização e combate à caça furtiva;
  • envolvimento efectivo das comunidades locais;
  • melhoria estratégica do acesso à água;
  • gestão da vegetação para reduzir queimadas devastadoras;
  • reintrodução planeada de espécies-chave incapazes de recolonizar naturalmente.

Só assim poderemos ajudar a sarar as cicatrizes deixadas na paisagem e assegurar o futuro da biodiversidade do local, evitando que outras espécies sigam o doloroso caminho sem regresso das que já perdemos.

Referências:

  • Huntley, B. J., Russo, V., Lages, F., & Ferrand, N. (Eds.). (2019). Biodiversidade de Angola: Ciência e Conservação: Uma Síntese Moderna. Disponível em: pdf
  • Overton J, Fernandes S, Elizalde D et al (2017) A large mammal survey of Bicuar and Mupa National Parks, Angola. Disponível em: https://rris.biopama.org/sites/default/files/2019-03/bicuarmupafinalreport_march2017_1.pdf?utm
  • Curveira-Santos, G., Rocha, F., Tafani, M., Lutondo, E., Chicomo, M., & Monterroso, P. (2025). Imbalanced recovery and depleted baselines of a protected mammal community in post-conflict Angola. Biological Conservation. https://doi.org/10.1016/j.biocon.2025.111444
  • Mendelsohn, J., & Mendelsohn, S. (2018). Sudoeste de Angola: um retrato da terra e da vida / South West Angola: A Portrait of Land and Life. Windhoek: Arte e Ciência. ISBN 978‑99945‑79‑76‑5

A Eco Angola é uma organização que promove a sustentabilidade com objetivo de preservar o ambiente e promover o bem estar social.

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