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Lisima Lya Mwono: “Fonte da Vida” torna-se o primeiro sítio Ramsar de Angola

Feliciano Ginga e Luiana Guerra by Eco Angola

O Governo de Angola e a Convenção de Ramsar sobre Zonas Húmidas formalizaram um marco histórico para a conservação ambiental no país. Lisima Lya Mwono, que em língua Luchaze significa “Fonte da Vida”,  foi oficialmente classificada como a primeira Zona Húmida (Humedal) de Importância Internacional de Angola. O sítio foi consagrado sob o registo n.º 2584, conforme anunciado pela página oficial da Convenção de Ramsar a 6 de Janeiro de 2026.

Lisima Lya Mwono, vista panorâmica da região de Tempué com chuva ao fundo (Crédito: Chris Boyes/National Geographic, 2019, Angola)

Um Gigante Hídrico no Coração do Moxico

Localizado na província do Moxico, nas terras altas centrais e sudeste, o Lisima Lya Mwono integra a região biogeográfica do Zambeze e constitui um dos pontos hidrológicos mais críticos do continente. Com uma extensão colossal de 53.670 km², este Sítio Ramsar não é apenas uma reserva de biodiversidade – é a “unidade de retenção hídrica” que garante a sobrevivência de dois dos maiores sistemas fluviais de África: o Okavango e o Zambeze.

A designação deste sítio marca um momento histórico ao preencher uma lacuna crítica na conservação regional. Durante décadas, o mundo focou-se na protecção do Delta do Okavango, no Botsuana, um Património Mundial da UNESCO e Sítio Ramsar. No entanto, o Delta é apenas o destino final de um sistema que começa em Angola. Enquanto o Delta estava protegido, as suas fontes permaneciam vulneráveis. Com a oficialização do Lisima Lya Mwono, Angola assume o papel de guardiã da “torneira” que mantém o sistema vivo.

Mapa da área de Lisima Lya Mwono (NationalGeographic, 2021) e vista aérea do rio Cuando (Créditos: Kostadin Luchansky/NationalGeographic, 2018 - Angola)

A razão da importância deste local reside na sua rede complexa de turfeiras e vales. Este ecossistema funciona como uma infraestrutura natural capaz de armazenar cerca de 423 quilômetros cúbicos de água que, através de um processo de absorção e libertação gradual, as turfeiras do Moxico regulam o caudal do Rio Cuito (o braço oriental da Bacia do Okavango) impedindo que o Delta sofra secas extremas no cacimbo, e do Rio Cuando (afluente do Zambeze).

O Povo Luchazi: Guardiões da Sustentabilidade Ancestral

A preservação deste santuário deve-se, em grande medida, aos habitantes locais. O povo Luchazi tem mantido a paisagem imaculada através de tradições e modos de vida intrínsecos. Desde tempos imemoriais, estas comunidades praticam o conceito de sustentabilidade na sua forma mais pura, protegendo as nascentes, os rios e as florestas sagradas.

O equilíbrio na utilização dos recursos naturais e o conhecimento ancestral dos Luchazi têm sido fundamentais para manter este ecossistema único num compromisso comunitário reconhecido como peça-chave no trabalho desenvolvido pelo Projecto de Vida Selvagem do Okavango da National Geographic (NGOWP).

A Quinta Likumbi (Mulher luchazi) trabalha a sua parcela manualmente antes da chegada das chuvas. Créditos: NationalGeographic (S/D) - Angola

Um Éden de Biodiversidade: Recordes e Novas Descobertas

Os levantamentos biológicos realizados na área, no âmbito do Projecto de Áreas Selvagens do Okavango da National Geographic (Okavango Wilderness Project – NGOWP), produziram resultados de elevada relevância científica, posteriormente publicados em diversos artigos científicos internacionais. Estes resultados surpreenderam a comunidade científica, ao revelarem uma biodiversidade muito superior ao esperado, e contribuíram de forma determinante para o reconhecimento e a designação do Lisima Lya Mwono como zona húmida de importância internacional.

A riqueza taxonómica de Lisima Lya Mwono inclui:

  • 73 novas espécies documentadas para a ciência académica;
  • Pelo menos 275 espécies potencialmente novas;
  • 300 espécies registadas pela primeira vez em território angolano.

No que respeita à avifauna, a região é um santuário de relevância global. Foram registadas 462 espécies de aves, das quais 52 estão estritamente associadas às pastagens e aos “dambos” (zonas húmidas de planície), destacando a importância destes habitats abertos para a conservação.

Ave local (abelharucos-de-testa-branca) e elefante africano, rio Cuando. (Créditos: Kostadin Luchansky/NationalGeographic, 2018 - Angola).

Refúgio de Espécies Ameaçadas

O lugar protege também habitats críticos para fauna rara e criticamente ameaçada, incluindo:

  • A emblemática Palanca Negra Gigante (Hippotragus niger ssp. variani);
  • Grandes predadores como o Cão-selvagem-africano (Lycaon pictus), o leão e o guepardo;
  • A planta carnívora Genlisea angolensis, quase endémica da região.
  • Mais de 18 espécies de peixes endémicas e áreas de desova essenciais para o peixe-tigre africano (Hydrocynus vittatus).

A oficialização de Lisima Lya Mwono como Sítio Ramsar não é apenas um título; é um compromisso de Angola com a segurança hídrica regional e com a preservação de um dos últimos redutos de vida selvagem intacta no planeta


Fontes: Ramsar, 2026 e National Geographic, 2026

Feliciano Ginga e Luiana Guerra

Feliciano Ginga e Luiana Guerra

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A biodiversidade, ou diversidade biológica, é descrita como a riqueza e a variedade de todas as formas de vida, incluindo os genes contidos em cada indivíduo e a composição dos diversos ecossistemas, onde a existência ou eliminação de uma espécie afecta directamente muitas outras (WWF, 2020).

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