Durante décadas, a camada de ozono esteve sob forte pressão devido à actividade humana. O chamado “buraco da camada de ozono” tornou-se um dos maiores alertas ambientais do século XX. Hoje, décadas depois, os sinais de recuperação mostram que as medidas adoptadas começaram a dar resultados, embora ainda haja um longo caminho pela frente.
A camada de ozono é uma das principais protecções naturais da Terra. É uma região localizada na estratosfera, entre cerca de 15 e 35 quilómetros de altitude, onde se concentra uma quantidade elevada de ozono (O₃), um gás que absorve grande parte da radiação ultravioleta (UV) emitida pelo Sol, sobretudo a UV-C e parte da UV-B.
A radiação UV faz parte da luz solar e, em pequenas quantidades, a UV-B contribui para a produção de vitamina D, importante para a saúde dos ossos, dos músculos e para o funcionamento do sistema imunitário. No entanto, uma exposição excessiva pode trazer riscos para a saúde e para o ambiente, que abordaremos mais à frente.
É aqui que se destaca a importância da camada de ozono: quando a quantidade de ozono na atmosfera diminui, aumenta a quantidade de UV-B que pode atingir a superfície terrestre, elevando a exposição dos seres vivos aos seus efeitos.
O que é o “buraco” da camada de ozono?
Apesar do nome, o “buraco da camada de ozono” não é um buraco literal na atmosfera. A expressão é usada para descrever uma região, sobretudo sobre a Antártida, onde os níveis de ozono diminuem significativamente durante a primavera do Hemisfério Sul.
O ozono não desaparece completamente. A sua concentração é que pode cair para níveis muito inferiores aos habituais, dando origem à região conhecida como “buraco” da camada de ozono.
O que causa este “buraco”?
A principal causa são as chamadas substâncias que destroem o ozono, entre elas os clorofluorcarbonetos (CFC). Estas substâncias foram utilizadas durante décadas em equipamentos de refrigeração e ar condicionado, aerossóis, espumas e outros produtos.
Por serem muito estáveis, os CFC podem permanecer durante décadas na atmosfera e ser transportados até à estratosfera. Aí, a radiação UV quebra estas moléculas e liberta cloro, que participa em reacções químicas capazes de destruir repetidamente o ozono.
Estas substâncias foram libertadas em diferentes partes do mundo e, através da circulação atmosférica, podem ser transportadas por grandes distâncias, chegando à estratosfera e distribuindo-se por diferentes regiões do planeta. É por isso que a destruição do ozono se tornou um problema de dimensão global.
Por que razão o fenómeno é particularmente intenso na Antártida?
A resposta está numa combinação muito específica de frio extremo, nuvens estratosféricas polares, isolamento atmosférico e luz solar.
O “buraco da camada de ozono” é um fenómeno sazonal, ou seja, ocorre numa determinada época do ano. Na Antártida, acontece principalmente no final do inverno e durante a primavera antárctica, entre Agosto e Novembro, atingindo normalmente o seu máximo no início de Outubro.
Durante o inverno, as temperaturas muito baixas na estratosfera permitem a formação de nuvens estratosféricas polares, constituídas por pequenas partículas de gelo. Nas superfícies destas partículas ocorrem reacções químicas que transformam compostos de cloro e bromo em formas mais reactivas, capazes de destruir o ozono.
Ao mesmo tempo, forma-se o vórtice polar, uma grande área de ventos fortes que funciona como uma espécie de “barreira”, mantendo o ar sobre a Antártida relativamente isolado. Isto permite que estas condições se mantenham durante várias semanas.
Quando a luz solar regressa na primavera, activa reacções químicas que tornam o cloro e o bromo muito mais reactivos. Estes elementos passam então a participar em reacções que destroem rapidamente grandes quantidades de ozono. Como não são consumidos de forma definitiva durante o processo, podem voltar a participar em novas reacções e destruir muitas outras moléculas de ozono.
Com o avanço da primavera, a estratosfera começa a aquecer. O vórtice polar enfraquece e acaba por se romper, permitindo que o ar antárctico se misture com o ar de outras regiões. As condições que favorecem a destruição intensa do ozono deixam então de existir e o buraco da camada de ozono começa a diminuir.
Assim, embora as substâncias que destroem o ozono tenham sido libertadas em diferentes partes do mundo, é a combinação de frio extremo, nuvens estratosféricas polares, isolamento atmosférico e luz solar que torna a destruição do ozono especialmente intensa sobre a Antártida.
Este fenómeno deixa uma mensagem clara: não existem fronteiras para os impactos ambientais. O que é libertado numa parte do mundo pode ser transportado pela atmosfera e produzir efeitos a milhares de quilómetros de distância, até nas regiões mais remotas do planeta. Ou seja, as nossas acções locais podem ter consequências globais.
Que impactos provoca a redução do ozono?
Quando a quantidade de ozono diminui, mais radiação UV-B consegue atingir a superfície terrestre. Esta exposição adicional pode ter efeitos na saúde humana, nos ecossistemas e nos materiais.
- Saúde humana: a exposição excessiva à UV-B pode causar queimaduras solares e danos no ADN, aumentando o risco de cancro da pele e cataratas e podendo afectar o sistema imunitário.
- Plantas e culturas agrícolas: níveis elevados de UV-B podem interferir na fotossíntese, no crescimento e no desenvolvimento de algumas espécies e, em determinados casos, afectar a produtividade das culturas.
- Ecossistemas aquáticos: organismos que vivem perto da superfície da água, incluindo o fitoplâncton, podem ser afectados. Este grupo de organismos é fundamental para as cadeias alimentares marinhas e participa no ciclo do carbono.
- Materiais: a radiação UV pode acelerar a degradação de materiais expostos ao exterior, como plásticos, borrachas, tintas e revestimentos.
Além destes efeitos directos da radiação, a redução do ozono antárctico pode também influenciar os padrões de ventos e a circulação atmosférica no Hemisfério Sul.
Camada de ozono e alterações climáticas: qual é a relação?
A destruição da camada de ozono e as alterações climáticas são problemas diferentes, mas estão relacionados.
A destruição do ozono foi causada principalmente por substâncias como os CFC (clorofluorcarbonetos), enquanto o actual aquecimento global resulta sobretudo do aumento dos gases com efeito de estufa, principalmente devido à queima de combustíveis fósseis e a outras actividades humanas.
A ligação está também nas próprias substâncias: muitos CFC são gases com efeito de estufa. A sua redução através do Protocolo de Montreal ajudou, por isso, não só a proteger a camada de ozono, mas também a limitar o aquecimento global.
Por outro lado, alguns gases que substituíram os CFC, como os HFC (hidrofluorcarbonetos), não destroem o ozono, mas contribuem para o aquecimento global. Por isso, em 2016, foi adoptada a Emenda de Kigali, que prevê a redução progressiva de vários HFC. Estima-se que esta medida possa evitar cerca de 0,3 a 0,5 °C de aquecimento até 2100.
A relação funciona também no sentido contrário: as alterações climáticas podem influenciar a camada de ozono, ao alterar a temperatura e a circulação da estratosfera.
Assim, embora sejam desafios diferentes, a protecção da camada de ozono e o combate às alterações climáticas estão interligados.
Mas, se os CFC praticamente já não são utilizados, por que ainda existe o buraco na camada de ozono?
Uma das características mais preocupantes dos CFC é a sua longa permanência na atmosfera. Alguns podem permanecer durante décadas ou até mais de um século. Por isso, as emissões do passado continuam a produzir efeitos muito depois de a sua produção ter sido reduzida.
Os CFC que já foram libertados continuam presentes na atmosfera e podem chegar à estratosfera, onde libertam cloro e contribuem para a destruição do ozono.
Parar a emissão de uma substância não significa que os seus efeitos desapareçam imediatamente.
Perante estas evidências, os países adoptaram a Convenção de Viena, em 1985, e o Protocolo de Montreal, em 1987, que estabeleceu a eliminação progressiva das principais substâncias que destroem o ozono.
Desde então, cerca de 99% das substâncias controladas que destroem o ozono foram eliminadas, permitindo travar a deterioração da camada e iniciar a sua recuperação gradual.
Qual é o estado actual da camada de ozono?
A situação da camada de ozono é hoje mais positiva, mas a recuperação ainda não está concluída. As concentrações das principais substâncias que destroem o ozono continuam a diminuir e, a longo prazo, observa-se uma tendência de recuperação.
No entanto, o buraco da camada de ozono continua a formar-se sazonalmente sobre a Antártida, e a sua dimensão pode variar bastante de um ano para outro devido às condições atmosféricas.
Os dados mais recentes disponíveis, referentes a 2025, mostram sinais encorajadores. Nesse ano, o buraco atingiu a 9 de Setembro, a extensão de cerca de 22,86 milhões de km², sendo a quinta menor extensão média desde 1992. Para comparação, o maior máximo diário registado ocorreu em 2000, quando o buraco atingiu cerca de 29,9 milhões de km². O valor de 2025 foi, portanto, cerca de 24% inferior a esse recorde.
É importante, contudo, não interpretar um único ano como prova de recuperação. O tamanho do buraco depende também das condições meteorológicas e da dinâmica da atmosfera. É a tendência observada ao longo de várias décadas que permite avaliar a recuperação da camada de ozono.
A avaliação científica internacional prevê que, se as políticas actuais forem mantidas, os níveis de ozono deverão regressar aproximadamente aos valores de 1980 por volta de 2040 na maior parte do mundo, 2045 no Árctico e 2066 sobre a Antártida.
Em 2026, o processo sazonal ainda está a decorrer. O período de maior destruição do ozono ocorre normalmente entre Setembro e Outubro, pelo que ainda não é possível determinar a extensão máxima do buraco deste ano. Os dados são acompanhados diariamente pela NASA e pela NOAA e serão avaliados no próximo relatório científico internacional sobre a camada de ozono.
A recuperação da camada de ozono é, assim, um processo lento, mas com resultados concretos.
Uma recuperação que deixa uma lição
A história da camada de ozono mostra que as actividades humanas podem causar impactos à escala global, mas também que é possível mudar o rumo de uma crise ambiental.
A recuperação que hoje observamos é resultado de décadas de ciência, cooperação internacional e acção política. A comunidade científica identificou o problema, os países adoptaram medidas internacionais e a indústria desenvolveu alternativas às substâncias que destruíam o ozono.
O processo ainda não terminou. A recuperação da natureza leva tempo, mesmo quando as causas de um problema começam a ser controladas.
Mas o caso da camada de ozono deixa uma lição importante: quando reconhecemos um problema e agimos em conjunto, é possível proteger o planeta e construir soluções para as próximas gerações.









