Em Angola, é evidente a desigualdade de género em vários sectores sociopolíticos e culturais. As mulheres estão mais vulneráveis e expostas aos efeitos das alterações climáticas, pois são elas que mais sofrem as consequências desses impactos (Leia o nosso artigo sobre Mulheres na linha de frente dos desafios climáticos para saber mais sobre os desafios actuais enfrentados pelas mulheres).
De acordo com a ACAPS (2025), o sul de Angola enfrenta uma grave crise alimentar provocada pela seca, que tem afectado a agricultura e os meios de subsistência. Entre Novembro de 2020 e Janeiro de 2021 registou-se um dos períodos mais severos desta crise, marcado por perdas significativas na produção agrícola. A escassez de chuvas, verificada desde 2018 e prolongada até à estação chuvosa de 2020–2021 (normalmente de Novembro a Abril), contribuiu para a pior seca em termos de impacto socioeconómico desde 1981, afectando cerca de 2,2 milhões de pessoas.
Foi neste contexto desafiador que muitas mulheres se levantaram e, desde então, têm assumido, de forma resiliente, o protagonismo na resposta aos desafios impostos pelas alterações climáticas. Conheça as histórias inspiradoras de Edna, Talei e Maria, relatadas pelos nossos redatores no terreno.
Justa Chiculo – Moxico, Outubro 2025
Redactado por Isidoro Chacuiva
Na província do Moxico, município do Lucusse, encontra-se a pequena comunidade de Luantamba, onde a escassez de água e a seca marcam o quotidiano dos seus habitantes. Em Luantamba vivem cerca de 210 pessoas; o maior grupo é composto por 83 mulheres e 79 crianças, muitas das quais estão fora do sistema de ensino.
Durante a visita à localidade, era frequente ver pessoas a percorrer longas distâncias em busca de água. Justa Chiculo, conhecida carinhosamente como mãe Jú, que, aos 51 anos, se vê obrigada a reinventar-se diariamente em meio à instabilidade climática.
Entre a seca e a sobrevivência
As alterações climáticas deixaram de ser uma previsão distante — são hoje uma realidade vivida, sobretudo pelas mulheres em comunidades rurais. Aqui, a escolha entre matar a sede ou tomar banho tornou-se um dilema diário, moldando rotinas, corpos e esperanças.
O solo cada vez mais árido condiciona o destino de muitas famílias. Entre elas está a mãe Jú, que sustenta o lar com esforço incansável. Todos os dias caminha cerca de 7 km para buscar água — o suficiente para encher um ou dois bidões de 20 litros, que servem a família durante um dia.
“Há dias em que não tomamos banho. A água vai primeiro para cozinhar e beber. O resto fica para amanhã.”
— Mãe Jú
Perante as dificuldades, a comunidade decidiu agir. Com apoio local, construiu um tanque comunitário com capacidade para 12 mil litros, que serve como reservatório. O tanque é abastecido, ocasionalmente, por um camião-cisterna vindo do Luena, e a água é vendida de forma controlada:
- 20 litros por 250 Kz
- 100 litros por 500 Kz
Apesar do abastecimento irregular, a iniciativa tem grande importância — símbolo de resiliência e organização comunitária.
“Se tivéssemos água sempre, muitos problemas de saúde seriam evitados. As crianças não adoeceriam tanto, e nós, mulheres, não precisaríamos caminhar tão longe.”
— Mãe Jú
O tanque não resolve totalmente o problema, mas oferece à comunidade um sopro de esperança. As mulheres, antes obrigadas a caminhar horas sob o sol, passam agora a ter mais tempo para outras actividades — como cuidar dos filhos, das hortas e de si próprias. É na persistência silenciosa destas mulheres que se pode encontrar o verdadeiro significado de resiliência: a capacidade de continuar, mesmo quando tudo parece secar.
Edna Monguela e Talei Tchicacava – Huíla, Outubro 2025
Redactado por Bruno Guimarães
No município da Humpata, província da Huíla, conhecemos a história de duas jovens agricultoras que enfrentam, com coragem e resiliência, os desafios impostos pelas alterações climáticas. Edna Monguela e Talei Tchicacava, de 23 e 24 anos de idade, naturais de Tchitoto, dedicam-se à agricultura numa pequena área de cerca de meio hectare. Nela cultivam milho, feijão, cenoura, batata, cebola e várias fruteiras, de onde retiram o sustento das suas famílias.
Quando a seca chegou
O ano 2020 marcou profundamente as suas vidas. Como tantas outras famílias da região, sofreram as severas consequências da seca. A estiagem prolongada provocou a perda total das colheitas, e o canal que devia transportar água da Barragem das Neves já não conseguia chegar às suas lavras. A infra-estrutura, ainda à espera de manutenção — apesar de constar em projectos governamentais —, deixou as comunidades à mercê da escassez. Mesmo diante das dificuldades, Edna e Talei persistiram. Dos poucos frutos que conseguiam colher — de pereiras, macieiras, limoeiros e laranjeiras — retiravam o essencial para sobreviver.
Quando as chuvas regressaram meses depois, a esperança renasceu — mas depressa se transformou em frustração. As precipitações tornaram-se irregulares: dois dias de chuva intensa seguidos por mais de uma semana de seca.
Quando chovia, o volume era tão grande que a água descia das zonas altas, arrastando terra e plantas, destruindo tudo o que restava. As áreas conhecidas como “terrenos minados” — zonas facilmente encharcadas — tornavam-se quase impossíveis de trabalhar. As raízes apodreciam, as plantas de milho tornavam-se devido ao excesso de água, os caules enfraqueciam e a erosão agravava a perda das colheitas.
Em 2022, cansadas de serem vencidas pela natureza, Edna e Talei decidiram continuar a lutar. Procuraram orientação junto de uma anciã da comunidade, a avó Elisa Tchipunde, cuja sabedoria transformou o rumo das suas lavras.
Inspiradas por ela, implementaram várias soluções sustentáveis:
- Construção de uma cacimba de grande capacidade, capaz de abastecer as plantações durante meses;
- Criação de um tanque natural (represa) que recolhe água da chuva através de pequenos canais, armazenando-a para o período seco;
- Uso de estrume em substituição de adubo mineral, ajudando o solo a reter humidade por mais tempo;
- Instalação de barreiras vegetais e montes de terra reforçados com sacos de areia, para desviar a água e reduzir os danos provocados pelas inundações.
Desde então, estas estratégias têm sido o segredo da sua resistência face às mudanças climáticas no Tchitoto.
Hoje, Edna e Talei colhem mais do que em anos anteriores — prova de que o esforço, o saber comunitário e a determinação podem transformar adversidade em esperança. No rosto de Talei, com o filho ao colo, vê-se a força de quem não desistiu.
Que a história destas duas jovens inspire muitas outras — mulheres com esperança que, todos os dias, cultivam o futuro de Angola.
O que aprendemos e o que não podemos ignorar?
As histórias de Edna, Talei e Justa revelam a força e resiliência das mulheres rurais angolanas perante os impactos das alterações climáticas. Mesmo enfrentando seca, escassez de recursos e desigualdades de género, mostram que o saber tradicional, a solidariedade e a determinação podem transformar adversidade em solução.
Contudo, é urgente que os órgãos decisores se comprometam com políticas e acções concretas que reduzam os impactos climáticos nestas localidades — assegurando infra-estruturas hídricas, apoio técnico e oportunidades sustentáveis.
Só assim será possível aliviar o peso que estas mulheres carregam e garantir um futuro mais justo, resiliente e sustentável para as comunidades rurais de Angola.
A EcoAngola apoia e participa em iniciativas que visam potenciar e viabilizar o empreendedorismo verde entre jovens sonhadores. Saiba mais sobre este projecto aqui.









