Expedição nas Montanhas do Namba Revela Espécie Única no Mundo
Uma nova espécie de borboleta diurna foi recentemente descoberta em Angola por uma equipa composta pelo ecologista Alan Gardiner e pelos lepidopteristas (entomologistas especializados em borboletas) zimbabuanos Jonathan Francis e Shabani Ndarama. A descoberta ocorreu durante uma expedição realizada em maio de 2023, nas montanhas do Namba, na província do Cuanza Sul.
A espécie foi identificada como Iolaus francisi, sendo vulgarmente conhecida como borboleta-safira de Francis.
A trajetória que levou a esta descoberta começou em outubro de 2022, quando Jonathan Francis havia colectado duas lagartas de licenídeos desconhecidas que se alimentavam de visco nas florestas de alta altitude da cordilheira do Namba (Cuanza Sul), uma região historicamente pouco explorada devido aos impactos da Guerra Civil Angolana.
A criação dessas lagartas até à fase adulta, que resultou em duas fêmeas, revelou características incomuns, o que motivou a realização de uma expedição mais abrangente no ano seguinte. Durante essa expedição, foram finalmente observados indivíduos machos da espécie. Em 2025, os espécimes foram formalmente descritos e confirmados como uma nova espécie endémica de Angola, num estudo publicado na revista Zootaxa, em Julho do mesmo ano.
Segundo Alan Gardiner (2025), Iolaus francisi pertence à família Lycaenidae, uma das mais diversas entre os lepidópteros, destacando-se também pelos elevados níveis de endemismo. A espécie apresenta dimorfismo sexual marcado e uma coloração alar intensa e iridescente.
Nos machos, a face superior das asas exibe um azul metálico brilhante, delimitado por margens negras bem definidas. Já a face inferior é branco-prateada, com linhas finas de tonalidade alaranjada e acastanhada, que funcionam como padrão críptico (estratégia de camuflagem) quando o inseto se encontra em repouso.
As fêmeas apresentam uma coloração dorsal mais discreta, com azul menos intenso e maior predominância de áreas escuras, o que lhes confere um aspecto mais opaco. A face inferior mantém o padrão prateado, com variações nas linhas e manchas que permitem a distinção da espécie.
Apesar da sua pequena dimensão, com envergadura entre 30 e 36 mm, típica dos licenídeos, a Iolaus francisi destaca-se pela complexidade dos seus padrões cromáticos. Estas características desempenham funções ecológicas importantes, estando associadas tanto à comunicação entre indivíduos da mesma espécie como à evasão de predadores, através de mecanismos de camuflagem e disrupção visual.
O local da descoberta e a pressão sobre os seus ecossistemas
As florestas afromontanas, localizadas nas zonas mais altas da escarpa angolana e em outras regiões elevadas de África, são relíquias de períodos mais húmidos do passado. Hoje, funcionam como “ilhas ecológicas” isoladas e estão entre os ecossistemas mais raros, fragmentados e vulneráveis do continente (Huntley, 2023). Em Angola, ocorrem em pequenos enclaves, como nas montanhas do Moco, da Namba e na escarpa da Chela.
Em Angola, as florestas afromontanas ocupam menos de 1.000 hectares, com cerca de 85% dessa área concentrada na Serra da Namba, no Cuanza Sul — local onde foi descoberta a borboleta-safira de Francis. Identificadas cientificamente apenas em 2010, estas florestas desempenham um papel biogeográfico crucial, funcionando como ligação entre as formações afromontanas da África Oriental como Zâmbia, Malawi e Tanzânia e da África Ocidental, como nos Camarões.
Distribuem-se em manchas isoladas, principalmente em vales profundos e zonas rochosas, e estão inseridas na ecorregião 4 (Huntley, 2023).
Huntley reforça que estes ecossistemas se destacam como importantes centros de biodiversidade e endemismo em África, albergando espécies altamente especializadas e populações isoladas a mais de 2.000 km de habitats semelhantes noutras regiões africanas. A ocorrência dessa nova espécie de borboleta diurna, Iolaus francisi, nas florestas da Serra da Namba reforça esta designação. Portanto, estas montanhas permanecem como refúgios de biodiversidade ainda insuficientemente conhecidas pela ciência. Contudo, apesar de toda esta relevância, a maioria encontra-se desprotegida; actualmente, apenas o Morro do Moco e a Serra do Pingano detêm o estatuto oficial de áreas protegidas.
Montanhas do Namba, na província do Cuanza Sul, oeste de Angola. Fotografias de Alexandre Vaz (2023, à esquerda) e de Ryan Truscott (2024, à direita).
Borboletas, diversidade e índice de endemismo
As borboletas pertencem à ordem Lepidoptera, um dos grupos mais diversos do reino animal. São caracterizadas por asas cobertas de escamas microscópicas e por um ciclo de vida com metamorfose completa, passando pelas fases de ovo, lagarta, crisálida e adulto.
Dentro deste grupo, as borboletas diurnas distinguem-se das mariposas por antenas terminadas em forma taco de Golf ou maça (clubadas) e por manterem as asas fechadas verticalmente sobre o dorso quando em repouso. Em contraste, muitas mariposas possuem antenas filiformes ou plumosas e repousam com as asas abertas ou inclinadas.
Dados recentes indicam que Angola alberga pelo menos 792 espécies e subespécies de borboletas diurnas, das quais cerca de 57 são endémicas. Este número posiciona Angola entre os principais centros de diversidade de borboletas em África, que conta com cerca de 4405 espécies, concentrando aproximadamente 18 % das espécies diurnas do continente.
Bioindicadores de um ecossistema em risco
As borboletas são amplamente reconhecidas como organismos-chave na avaliação da saúde dos ecossistemas. Devido à sua elevada sensibilidade às alterações ambientais e ao facto de serem relativamente bem conhecidas do ponto de vista taxonómico, funcionam como bioindicadores eficazes da dinâmica ecológica. Variações na sua abundância, distribuição ou diversidade podem sinalizar mudanças subtis ou profundas nos habitats, muitas vezes antes de outros organismos evidenciarem esses impactos.
Assim, a presença de borboletas raras ou endémicas em determinados habitats — como as florestas afromontanas da Serra do Namba — deve ser interpretada simultaneamente como um sinal de elevada integridade ecológica e como um alerta para a fragilidade desses sistemas. A sua monitorização contínua pode fornecer dados cruciais para orientar estratégias de conservação, sobretudo em regiões onde a pressão sobre os ecossistemas naturais continua a intensificar-se.
Fonte: News Mongabay, 2025








