Todos os dias, nas cidades angolanas, cruzamo-nos com pessoas que percorrem ruas, mercados e lixeiras à procura de materiais recicláveis. Muitas vezes ignorados, estes trabalhadores vivem uma rotina marcada pelo esforço físico, pela instabilidade económica e pela invisibilidade social. Apesar disso, o seu trabalho é essencial para a limpeza urbana, para a protecção do ambiente, para a manutenção da saúde pública e para a promoção da reciclagem, contribuindo de forma silenciosa, mas significativa, para a sustentabilidade e o bem-estar colectivo.
Perante esta realidade, impõe-se uma questão central: quem são as pessoas que sustentam parte da reciclagem urbana em Angola e por que é importante discutir os seus desafios? Com este propósito, a EcoAngola através da equipa do REEDUCA, esteve no terreno durante vários meses em 2025, e trabalhou com catadores e cooperativas para compreender a sua realidade, valorizar o seu contributo e dinamizar iniciativas que promovam dignidade, inclusão social e reconhecimento institucional.
Quem são os catadores?
Os catadores de materiais recicláveis são trabalhadores urbanos, maioritariamente inseridos na informalidade, que se dedicam à recolha, triagem e comercialização de resíduos sólidos recicláveis como forma de subsistência. Ao transformar resíduos descartados em recursos reaproveitáveis, desempenham um papel fundamental na reciclagem, na protecção ambiental e no funcionamento da economia dos resíduos.
Em cidades como Luanda, muitos destes trabalhadores organizam-se em associações ou cooperativas e contribuem de forma significativa para a gestão informal dos resíduos urbanos. Por exemplo, a Associação de Jovens Catadores e Ambientalistas de Angola (AJOCAMARC) tem desempenhado um papel relevante na organização e valorização dos catadores, apoiando processos de organização colectiva e fortalecendo o reconhecimento destes actores na cadeia de gestão e valorização dos resíduos.
Estimativas indicam que, apenas na capital, cooperativas de catadores chegam a recolher cerca de 30 toneladas de resíduos recicláveis por dia, evidenciando a relevância do seu trabalho para a sustentabilidade urbana. Este volume expressivo traduz-se não apenas em benefícios ambientais, mas também na consolidação de uma cadeia informal de valorização de resíduos com impacto económico significativo.
A recolha ocorre maioritariamente em ruas e valas, seguida de mercados e feiras, com casos em contentores públicos, empresas e escolas. Este padrão demonstra o papel central das cooperativas e dos catadores na limpeza urbana, sobretudo em zonas informais e de fraca cobertura municipal, consolidando os catadores como actores essenciais da gestão sustentável dos resíduos urbanos em Angola.
Estigmatização social no quotidiano do catador
Apesar da sua importância ambiental e económica, a actividade de catador é frequentemente associada a uma baixa reputação social em Angola. Narrativas mediáticas e percepções comunitárias tendem a reduzir estes trabalhadores a símbolos de pobreza extrema, desvalorizando o seu contributo socioambiental. Em muitas comunidades, o uso de termos depreciativos reforça a invisibilidade social e dificulta a sua plena integração no espaço urbano, conforme nos fizeram saber alguns catadores.
Esta estigmatização limita a capacidade dos catadores de reivindicar direitos, negociar melhores condições de trabalho e aceder a serviços básicos como saúde, educação e protecção social. A imagem social negativa influencia também as respostas institucionais, resultando, muitas vezes, em políticas públicas que não reconhecem os catadores como actores legítimos na gestão de resíduos. Estudos internacionais demonstram que este fenómeno não é exclusivo de Angola, sendo recorrente em várias cidades africanas e de países em desenvolvimento.
Exclusão urbana, precariedade laboral e riscos diários
A exclusão dos catadores manifesta-se de forma clara na sua fraca integração nos sistemas municipais de gestão de resíduos e na ausência de mecanismos estruturados de emprego. Embora existam iniciativas como o Projecto Integrado de Catadores de Resíduos Sólidos (PICARS), que visa a formalização de cooperativas e o reforço de capacidades técnicas, muitos catadores continuam a actuar de forma individual, fora dos circuitos formais da economia, sem reconhecimento institucional nem protecção social.
No espaço público, esta exclusão traduz-se na falta de infra-estruturas adequadas para a triagem e o armazenamento de materiais. Sem locais apropriados, os catadores trabalham em ruas, contentores e espaços improvisados, ficando expostos a riscos físicos constantes e a conflitos frequentes com as autoridades municipais. A não inclusão nos planos oficiais de recolha e reciclagem constitui, assim, uma forma de marginalização espacial que limita a organização colectiva e o acesso a serviços urbanos essenciais.
As condições de trabalho são marcadas pela informalidade e precariedade: a maioria actua sem contratos, sem equipamentos de protecção individual, sem protecção sanitária e sem acesso regular a serviços de saúde. Como consequência, enfrentam riscos diários como ferimentos, exposição a materiais perigosos e problemas de saúde, sobretudo respiratórios e dermatológicos (como infecções na pele), perpetuando ciclos de vulnerabilidade social e laboral. A instabilidade dos preços dos materiais recicláveis agrava ainda mais esta situação, tornando o rendimento diário incerto e dificultando a construção de uma vida economicamente segura.
Estudos etnográficos indicam que, para muitas famílias, a recolha informal de resíduos é a principal estratégia de sobrevivência; para outras, funciona como complemento de rendimento num contexto de elevado desemprego estrutural. Em Angola, esta realidade é agravada pela presença de crianças e idosos na actividade, evidenciando a fragilidade das redes de protecção social e as limitações no acesso à educação e à segurança social. Esta é uma situação também observada noutros países africanos, como a África do Sul.
Caminhos para a inclusão e dignificação do catador
A superação dos desafios enfrentados pelos catadores de resíduos em Angola exige uma intervenção pública mais estruturada, coerente e de longo prazo. É fundamental que o Governo adopte políticas públicas integradas que reconheçam formalmente a actividade de catação como parte integrante do sistema nacional de gestão de resíduos, garantindo o acesso efectivo a direitos sociais, segurança e saúde no trabalho e oportunidades de geração de rendimento digno, em consonância com os princípios estabelecidos na Lei de Bases do Ambiente e na Estratégia Nacional de Gestão de Resíduos Urbanos (Lei n.º 5/98; ENGRU).
Iniciativas como o PICARS demonstram que é possível promover avanços concretos através da organização em cooperativas, da capacitação profissional e do incentivo à criação de micro e pequenas empresas ligadas à reciclagem. Estas abordagens estão alinhadas com as recomendações da Organização Internacional do Trabalho, que defende a transição progressiva da informalidade para o trabalho digno como instrumento de inclusão social e desenvolvimento económico sustentável (OIT, 2019).
Paralelamente, experiências promovidas por organizações internacionais e por parcerias entre entidades governamentais e não governamentais, como as acções de educação ambiental, formações em economia circular e fortalecimento de capacidades técnicas desenvolvidas pelo UNICEF Angola e pelo Projecto REEDUCA, evidenciam o impacto positivo de intervenções comunitárias na valorização social do trabalho dos catadores e no reforço do seu papel enquanto agentes activos da economia circular e da protecção ambiental (UNICEF, 2021; REEDUCA, 2025).
Transformar experiências pontuais em políticas públicas estruturantes constitui um passo decisivo para a dignificação dos catadores, o fortalecimento da economia circular e o cumprimento dos compromissos assumidos por Angola no âmbito da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável.
Apesar do seu contributo essencial, os catadores continuam, na sua maioria, a trabalhar em condições precárias, sem reconhecimento formal, protecção social adequada ou acesso a equipamentos de segurança e infra-estruturas básicas. A ausência de enquadramento legal e institucional perpetua a exclusão social e limita o seu potencial enquanto agentes de desenvolvimento sustentável.
É urgente que o Governo assuma um papel mais activo na criação e implementação de políticas públicas que promovam a dignificação do trabalho dos catadores, assegurando o reconhecimento legal da actividade e a sua integração efectiva nos sistemas formais de gestão de resíduos.
Um compromisso simbólico da EcoAngola
A partir de 31 de Janeiro de 2026, a EcoAngola irá assinalar simbolicamente o Dia Nacional do Agente de Sanidade Ambiental, como uma iniciativa anual para reforçar publicamente a valorização dos catadores, reconhecendo o seu papel fundamental na protecção da saúde pública, na limpeza urbana e na construção de comunidades mais resilientes e sustentáveis em Angola.
Esta iniciativa é também uma forma de homenagem à memória do Professor João Serôdio, que em 2022 partilhou esta visão com a comunidade da EcoAngola e defendeu, em diversas ocasiões, a necessidade de o Estado angolano instituir oficialmente esta data como forma de reconhecimento público do contributo dos catadores para a sociedade.
Conheça mais sobre o Projecto Reeduca e as iniciativas da EcoAngola em prol da educação ambiental, da economia circular e da gestão sustentável de resíduos em Angola no nosso site e redes sociais.

















