O impacto na costa de Luanda
O mar nunca foi apenas paisagem em Angola. É fonte de alimento, sustento e identidade para centenas de milhares de famílias ao longo dos cerca de 1.650 km de costa do país com o Oceano Atlântico. Segundo o Anuário Estatístico das Pescas de Angola (2022), até 2019 a pesca artesanal (marítima e continental) empregava cerca de 96.637 trabalhadores registados: aproximadamente 70.788 pescadores activos e 25.849 mulheres dedicadas ao processamento do pescado. As províncias costeiras, incluindo Luanda, concentram mais de 40% desse universo laboral. Uma economia que depende directamente da saúde do oceano. No entanto, esse mesmo oceano tem vindo a ser contaminado a partir da terra, comprometendo os recursos marinhos de Angola.
Luanda e a pressão dos resíduos urbanos
A cidade capital, com uma população estimada em 8.817.297 habitantes (segundo o recenseamento de 2024, publicado pelo INE), gera um volume de resíduos que os sistemas de recolha não conseguem acompanhar. De acordo com o Plano de Acção Nacional de Eliminação Progressiva dos Plásticos de Utilização Única (PLANEPP 2025–2027), aprovado pelo Decreto Presidencial n.º 122/25 de 29 de Maio de 2025, Angola produz cerca de 19.393 toneladas de resíduos sólidos por dia, com uma média de 0,59 kg por habitante. Luanda, por si só, é responsável por aproximadamente 7.500 toneladas diárias. Ainda assim, a taxa nacional de reciclagem não ultrapassa os 10%, o que agrava a pressão sobre o sistema e o ambiente.
O resultado do sistema precário de gestão de resíduos sólidos em Luanda acumula-se nas ruas, nos mercados, nas valas de drenagem e, por fim, chega ao mar.
Mobilizadores comunitários da EcoAngola durante jornadas de limpeza comunitária na praia do Benfica. Fonte: EcoAngola (2026)
O caminho (in)visível do lixo
O trajecto do lixo até ao oceano não é acidental, é sistémico. Nos bairros periurbanos e nos mercados informais, a acumulação de resíduos tornou-se uma constante e, com a chuva, é arrastada para as valas de drenagem urbana, que funcionam como verdadeiros canais de transporte até à costa. Plásticos, resíduos orgânicos e substâncias tóxicas percorrem esse caminho, chegam ao Oceano Atlântico, com impactos significativos nos ecossistemas marinhos e na saúde pública.
Em Luanda, as valas de águas pluviais, frequentemente obstruídas por plásticos e outros resíduos, são uma evidência directa deste desafio nacional. Trata-se de um cenário reconhecido pelo próprio PLANEPP, que o associa à insuficiência de infraestruturas e à fragilidade do sistema de gestão de resíduos.
Quando a chuva acelera o problema
Durante o período chuvoso, a situação agrava-se de forma considerável. As chuvas intensas arrastam, em poucas horas, grandes volumes de resíduos acumulados durante meses, incluindo lixo doméstico, resíduos do comércio, materiais de construção e detritos deixados nas vias públicas, conduzindo-os directamente para o mar. Nas zonas mais vulneráveis, onde as habitações são precárias e as ruas não são pavimentadas, a água da chuva provoca a erosão dos solos expostos, arrastando terra e detritos e aumentando a carga de poluição que chega à orla costeira.
O mar, neste processo, é apenas o destino final de uma cadeia que começa muito antes, nos bairros, na forma como os resíduos são geridos no dia-a-dia, na limitação de serviços e infraestruturas de recolha e tratamento, e nas fragilidades dos sistemas públicos de saneamento e gestão de resíduos. A fraca sensibilização ambiental das pessoas também contribui para a continuidade deste fluxo tão real e comum em Angola.
Zonas críticas: o caso do Benfica
A comuna do Benfica, tal como outras zonas costeiras de Luanda, enfrenta uma forte pressão ambiental associada à elevada densidade populacional, à drenagem urbana limitada e à presença de valas e linhas de água ligadas ao sistema costeiro.
Ao longo dos anos, observações em trabalho de campo e relatos de comunidades em zonas como a Samba, a Praça da Mabunda, o Benfica, o Cacuaco e a Ilha de Luanda têm registado a presença frequente de resíduos acumulados em espaços abertos, incluindo terrenos baldios e margens de valas de drenagem. Neste contexto, a produção diária de resíduos, combinada com as limitações dos serviços de recolha e gestão, contribui para essa acumulação e facilita o transporte do lixo em direcção ao oceano.
Rio Cambamba (Benfica) a ser “consumido” por resíduos sólidos. Fonte: EcoAngola (2026).
O plástico que persiste no tempo
A dimensão do problema pode ser ilustrada pela elevada presença de plásticos nos resíduos sólidos urbanos em Angola, embora as estimativas variem consoante as fontes e os contextos de recolha.
Ao contrário dos resíduos orgânicos, o plástico não desaparece facilmente: ele fragmenta-se ao longo do tempo. No ambiente marinho, a sua degradação pode levar décadas a séculos, originando partículas cada vez mais pequenas, conhecidas como microplásticos, que são extremamente difíceis de remover depois de dispersas na água.
Os impactos são múltiplos e amplamente documentados. Os plásticos afectam directamente a vida marinha, incluindo peixes, tartarugas e aves costeiras, e são frequentemente encontrados nos sistemas digestivos de várias espécies. Organizações ambientais em Angola e a nível internacional alertam que esta contaminação pode regressar ao ser humano através da cadeia alimentar, sobretudo pelo consumo de peixe e marisco. Isto ocorre devido a dois processos científicos bem estabelecidos: a bioacumulação, em que substâncias como microplásticos e outros poluentes se acumulam nos tecidos dos organismos ao longo do tempo, e a biomagnificação, em que a concentração dessas substâncias aumenta à medida que se sobe na cadeia alimentar, dos organismos mais pequenos até aos predadores, incluindo o ser humano.
Em Angola, estimativas de consumo indicam cerca de 14 kg de peixe por pessoa por ano, o que ajuda a ilustrar a relevância do risco para a saúde pública, embora os valores possam variar conforme as fontes e regiões.
Neste contexto, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), em iniciativas relacionadas com a poluição marinha, tem destacado que em zonas costeiras como Luanda, comunidades que dependem do mar para a alimentação e o rendimento, são também as mais expostas aos impactos da poluição que nele é descarregada, com efeitos sobre a saúde, os meios de subsistência e os ecossistemas associados à economia azul.
Comercialização de pescados nas praias de Luanda. Prodesi, 2020 Comércio na Praia da Mabunda. Africa Maganize (2014).
Entre políticas e a realidade
A sensibilização é necessária, mas insuficiente por si só. Resolver o problema do lixo no mar exige investimento estrutural (ainda aquém da dimensão do desafio). Em zonas como o Benfica, a ausência de separação de resíduos na origem contribui para a sobrecarga dos contentores e para a deposição de lixo misto em valas de drenagem e áreas costeiras, facilitando o seu transporte até ao oceano. Reverter este cenário exige uma estratégia integrada que reduza o descarte inadequado e promova a valorização dos resíduos, sendo a criação de ecopontos acessíveis uma medida prioritária.
A melhoria das infraestruturas de saneamento básico é um ponto de partida essencial. A insuficiência ou degradação dos sistemas de esgoto favorece o uso das valas de drenagem como destino de resíduos, contribuindo directamente para a contaminação do meio costeiro.
Em paralelo, a disponibilização de pontos de recolha acessíveis, em praias, mercados e zonas de comércio informal, pode influenciar de forma imediata o comportamento de descarte. Sem alternativas próximas e visíveis, o lixo tende a permanecer no espaço público.
A organização das actividades económicas informais, como mercados, vendas ambulantes e as ligadas ao pescado, é igualmente importante. A criação de espaços adequados, com áreas específicas para resíduos, pode reduzir significativamente a dispersão de detritos nas zonas costeiras.
A fiscalização e o controlo ambiental reforçam estas medidas, ao desencorajar práticas inadequadas e assegurar o cumprimento de normas básicas de higiene e gestão de resíduos.
Por outro lado, a valorização de resíduos orgânicos abre oportunidades de reaproveitamento, por exemplo na agricultura, reduzindo o impacto ambiental e criando valor económico local.
Por fim, a educação ambiental nas escolas é uma componente estrutural desta mudança, contribuindo para a formação de hábitos sustentáveis e para a consolidação de comportamentos mais responsáveis a longo prazo.
Mobilizadores EcoAngola em acção comunitária, Março. Fonte: EcoAngola (2026)
No plano político, Angola deu um passo relevante em 2025 com a aprovação do Plano de Acção Nacional de Eliminação Progressiva dos Plásticos de Utilização Única (PLANEPP 2025–2027), através do Decreto Presidencial n.º 122/25. O plano define metas como o aumento da taxa de reciclagem e a redução progressiva do uso de plásticos descartáveis, com implementação prevista até 2027.
Conclusão
Das nossas casas ao Atlântico, o percurso do lixo mostra que o problema não começa no mar, mas em terra, nos sistemas de gestão, nos comportamentos e nas condições em que as pessoas vivem. Interromper este ciclo exige mais do que acções pontuais: requer investimento consistente, melhor coordenação entre políticas públicas e soluções adaptadas à realidade local.
Proteger o oceano passa, inevitavelmente, por transformar a forma como os resíduos são produzidos, geridos e valorizados na gestão do território. É nesse ponto de origem que o problema se constrói, e é também aí que a solução deve começar.
Referências
Instituto Nacional de Estatística (INE). Anuário Estatístico das Pescas de Angola — 2021. Luanda: INE/MINPESMAR, 2022.
Instituto Nacional de Estatística (INE). Resultados do Censo 2024. Luanda: INE, 2024.
Ministério do Ambiente (MINAMB). Plano de Acção Nacional de Eliminação Progressiva dos Plásticos de Utilização Única 2025–2027 (PLANEPP). Decreto Presidencial n.º 122/25, de 29 de Maio de 2025.
Diálogos UE–Angola / PRODESI. Estudo da Cadeia de Valor do Sector das Pescas em Angola. Luanda, 2024.
Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Iniciativas sobre poluição marinha e sustentabilidade costeira em Angola. Luanda, 2024.
EcoAngola. Observações de campo nas zonas da Samba, Praça da Mabunda, Benfica, Cacuaco e Ilha de Luanda. Luanda, 2025–2026.








