O bairro do Patriota, localizado no município de Belas, integra uma das zonas de expansão urbana mais dinâmicas da região metropolitana de Luanda. Inicialmente concebido como uma centralidade habitacional planeada, consolidou-se como uma área predominantemente residencial, com infraestruturas modernas, vias asfaltadas e acesso relativamente estruturado a serviços como água, energia e saneamento — ainda que de forma desigual entre diferentes zonas.
O município de Belas apresenta uma configuração territorial heterogénea, onde áreas urbanas densas coexistem com zonas periurbanas em rápida expansão e espaços ainda marcados por características rurais. O clima tropical seco, com precipitação irregular e elevada variabilidade, influencia directamente o comportamento das linhas de drenagem, que permanecem secas durante grande parte do ano, mas podem tornar-se activas e até perigosas em períodos de chuva intensa.
É neste contexto que se insere o bairro Rio Seco, no Patriota, desenvolvido nas proximidades de linhas naturais de drenagem associadas à bacia do rio Cabolombo. Trata-se de um sistema de escoamento pluvial de pequena dimensão, composto por valas e cursos de água intermitentes, cujo caudal varia ao longo do ano e pode reduzir-se significativamente, ou mesmo desaparecer à superfície, durante a estação seca. Apesar da sua dimensão, estas linhas desempenham um papel fundamental no escoamento das águas pluviais, na recarga de aquíferos e na manutenção de pequenos ecossistemas urbanos.
No entanto, a expansão urbana acelerada no Patriota e nas zonas adjacentes tem vindo a comprometer este equilíbrio. A ocupação de áreas naturais de drenagem, a construção em zonas de depressão do solo e a crescente impermeabilização dos terrenos dificultam o escoamento da água e aumentam a exposição a inundações, poluição e degradação ambiental. Em alguns pontos, estas mesmas áreas são utilizadas para a produção de hortícolas, muitas vezes sem controlo sanitário adequado, o que levanta preocupações adicionais quando há indícios de contaminação do solo e da água.
Foi neste contexto que numa parceria entre a EcoAngola e a NOLA-LAB para implementação de um projecto da Stimuleringsfonds, realizou um levantamento na localidade do Rio Seco, com o objectivo de avaliar a qualidade microbiológica do solo e da água utilizados no local. Este estudo foi realizado pelo Laboratório de Microbiologia da Agrogebil e com o Centro de Investigação em Ciências Geológicas Aplicadas da Universidade Agostinho Neto.
Os resultados laboratoriais revelaram um cenário preocupante. Nas amostras de água recolhidas, tanto para Escherichia coli como para Enterococos, os resultados foram classificados como “TNTC” (Too Numerous To Count), expressão utilizada em microbiologia quando a concentração bacteriana é tão elevada que impede a contagem individual das colónias. Este resultado corresponde, na prática, a um nível extremo de contaminação fecal, incompatível com qualquer uso seguro da água, seja para consumo, contacto directo ou irrigação agrícola.
No solo, os resultados mostram que a contaminação existe, mas não de forma uniforme. Das três amostras analisadas, duas apresentaram presença de Escherichia coli, enquanto uma não revelou contaminação. Esta distribuição sugere que a presença da bactéria está associada a condições específicas do terreno, nomeadamente maior concentração de matéria orgânica e humidade, factores que favorecem a sobrevivência e multiplicação de microrganismos de origem fecal. Este padrão é frequente em contextos urbanos onde há infiltração de águas residuais ou deposição directa de matéria orgânica de origem doméstica.
A análise físico-química do solo ajuda a compreender por que razão estas áreas continuam a ser utilizadas para cultivo. Em algumas amostras, os níveis de matéria orgânica atingem valores elevados, próximos de 9%, o que confere ao solo uma aparência fértil e produtiva, tornando-o atractivo para práticas agrícolas de subsistência. No local, são produzidas hortaliças como ramas de batata doce, gimboa e couves. No entanto, os níveis de matéria orgânica elevados criam condições favoráveis à persistência de bactérias, sobretudo quando associada a humidade constante e fontes de contaminação fecal.
Outro elemento relevante é a salinidade do solo, que varia entre níveis médios e elevados, atingindo valores que podem comprometer o desenvolvimento de certas culturas a médio e longo prazo. Embora não inviabilize imediatamente a produção, a acumulação de sais pode reduzir a produtividade agrícola e afectar a qualidade das culturas ao longo do tempo. Já os níveis de nutrientes essenciais, como azoto, fósforo e potássio, situam-se, de forma geral, dentro de intervalos aceitáveis para solos produtivos, ainda que sem grande margem de reserva.
Em contraste com o risco biológico identificado, os resultados da análise química indicam a ausência de contaminação por metais pesados como chumbo e cádmio, cujos níveis foram registados como praticamente inexistentes. Este dado permite excluir, à partida, uma fonte de poluição industrial significativa, reforçando a ideia de que o principal problema ambiental no local é de natureza sanitária.
A presença de Escherichia coli, bactéria pertencente ao grupo dos coliformes fecais, indica contaminação de origem fecal e aumenta a probabilidade de existência de estirpes potencialmente patogénicas pois a sua origem está associada exclusivamente ao intestino humano e a animais de sangue quente. Embora a maioria das estirpes seja inofensiva e faça parte da microbiota intestinal de humanos e animais de sangue quente, algumas podem causar doenças graves, sobretudo infecções gastrointestinais.
A utilização destes solos e águas na produção de hortaliças, especialmente aqueles consumidos crús, levanta riscos directos para a saúde pública. A contaminação microbiológica pode ocorrer tanto pelo contacto com o solo como pela utilização de água contaminada na irrigação, facilitando a transmissão de agentes patogénicos ao longo da cadeia alimentar.
Em 2023, dados apresentados pelo Laboratório Central Agro-Alimentar de Luanda do Serviço Nacional de Controlo da Qualidade dos Alimentos, destacaram a Escherichia coli como um dos principais contaminantes em produtos agrícolas, e a presença de bactérias, associadas a doenças como febre tifóide e infecções diarreicas. Na ocasião, a responsável sublinhou que a segurança alimentar no país depende de uma abordagem multissectorial, envolvendo diferentes actores ao longo da cadeia de produção e distribuição.
A crescente pressão sobre os ecossistemas urbanos, aliada às limitações no saneamento e à expansão desordenada, torna a segurança alimentar um desafio cada vez mais urgente em Luanda. Garantir a qualidade dos alimentos, desde a produção local até à comercialização, é essencial para proteger a saúde pública. Trata-se de uma questão que cruza ambiente, saúde e desigualdade social, com impactos cumulativos que tendem a agravar-se se não forem devidamente enfrentados.
As actividades desenvolvidas no local enquadram-se no projecto Jardim Comunitário, promovido pelo NOLA-Lab em parceria com a EcoAngola, no âmbito da tese de mestrado da arquitecta paisagista Helena De Raeymaeker. A iniciativa procura valorizar o espaço urbano, promovendo o convívio comunitário e incentivando práticas sustentáveis.
Referências
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SEMINÁRIO sobre contaminantes alimentares e factores de risco em Angola destaca papel crucial dos laboratórios no controlo da qualidade. Smart Quality Angola, 29 fev. 2024. Disponível em: https://smartquality.ao/2024/02/29/seminario-sobre-contaminantes-alimentares-e-factores-de-risco-em-angola-destaca-papel-crucial-dos-laboratorios-no-controlo-da-qualidade/. Acesso em: 08 abr. 2026.








