Um novo estudo científico revela que a Guerra Civil Angolana reduziu significativamente a área ardida no leste do país. Mais do que as condições climáticas, foram as mudanças na vida das comunidades que transformaram o regime de fogo durante quase três décadas de conflito.
Durante muito tempo, os incêndios em Angola foram explicados sobretudo pelo clima, pela vegetação ou pelas práticas agrícolas. No entanto, uma investigação publicada em 2025 na revista científica Ecology and Society mostra que existe outro fator capaz de transformar profundamente a dinâmica do fogo: a guerra. Ao analisar imagens de satélite entre 1982 e 2018 e entrevistar 42 residentes que viveram a Guerra Civil no leste de Angola, investigadores concluíram que, durante o conflito, a área ardida foi, em média, 36% inferior à registada após o restabelecimento da paz.
Um resultado inesperado
À primeira vista, este resultado pode parecer contraditório. Em vários conflitos internacionais, como na Síria, Ucrânia e Turquia, a guerra esteve associada ao aumento dos incêndios devido ao uso de explosivos, destruição da vegetação ou ausência de gestão ambiental. Em Angola aconteceu algo diferente: Os investigadores verificaram que a diminuição dos incêndios não foi causada por alterações da temperatura ou da precipitação, mas sim pelas profundas mudanças sociais provocadas pela guerra.
Porque diminuíram os incêndios?
O estudo identifica quatro razões principais.
1. As pessoas deixaram de utilizar o fogo como antes
Nas zonas rurais do Moxico, o fogo faz parte da vida quotidiana. É utilizado para preparar terrenos agrícolas, criar aceiros, facilitar a caça tradicional, colher mel e gerir a paisagem. Durante a guerra, muitas destas atividades tornaram-se demasiado perigosas e foram reduzidas ou adaptadas.
2. Houve deslocação das populações
Milhares de pessoas abandonaram as suas aldeias ou passaram a viver em constante movimento para fugir aos combates. Com menos pessoas no território, houve também menos ignições provocadas pelas atividades humanas, normalmente responsáveis por grande parte dos incêndios na região.
3. Existiam regras muito rigorosas sobre o uso do fogo
Uma das descobertas mais marcantes do estudo foi a existência de um controlo extremamente apertado sobre qualquer utilização do fogo. Acender uma fogueira podia denunciar a localização de civis ou combatentes através do fumo visível por aviões e helicópteros. Por essa razão, muitas comunidades proibiam queimadas e impunham punições severas a quem desrespeitasse as regras, chegando, em alguns casos, a incluir castigos físicos ou mesmo a pena de morte.
4. O fogo não foi utilizado como arma de forma significativa
Embora bombas e explosões tenham provocado alguns incêndios localizados, os investigadores verificaram que nenhuma das partes em conflito utilizou sistematicamente o fogo para destruir florestas. Isto distingue Angola de outros cenários de guerra onde o incêndio foi usado deliberadamente como estratégia militar.
O regresso da paz trouxe também o regresso do fogo
Logo após o fim da guerra, em 2003, os investigadores observaram um aumento muito acentuado da área ardida. À primeira vista, poderia parecer um agravamento do problema. No entanto, o estudo sugere precisamente o contrário.
Os autores defendem que este aumento poderá representar simplesmente o regresso ao funcionamento normal das comunidades rurais, que voltaram a utilizar o fogo para agricultura, produção de mel, caça e outras atividades tradicionais. Isto significa que o período de guerra poderá ter sido a verdadeira exceção, e não o período posterior.
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O que isto significa para a gestão de fogos em Angola?
Uma das principais mensagens deste estudo é que o fogo não deve ser visto apenas como um problema ambiental. Em muitas regiões de Angola, o fogo constitui uma ferramenta tradicional de gestão da paisagem e um elemento essencial dos meios de subsistência das comunidades rurais, sendo utilizado na preparação de terrenos agrícolas, na criação de aceiros, na produção de mel e em outras atividades de subsistência.
Queimadas para preparação de terrenos agrícolas. Fonte: EcoAngola, 2025
Por isso, políticas que procurem simplesmente eliminar ou proibir todas as queimadas poderão não produzir os melhores resultados. Os investigadores defendem que a gestão do fogo deve integrar o conhecimento das comunidades locais, compreender a história da utilização do território e reconhecer que fatores sociais, culturais e políticos também influenciam os regimes de fogo.
Esta conclusão é particularmente relevante para Angola, onde o período de maior ocorrência de queimadas se concentra, geralmente, entre junho e setembro, coincidindo com a estação seca. Todos os anos, imagens de satélite mostram extensas áreas ardidas em diferentes províncias do país, fenómeno que resulta da combinação entre condições climáticas e atividades humanas.
Ao longo dos últimos anos, a EcoAngola tem procurado esclarecer este tema através de diversos artigos sobre queimadas, incêndios florestais, gestão integrada do fogo e os impactos ambientais e sociais das queimadas em Angola. Este novo estudo acrescenta uma perspetiva histórica importante, demonstrando que compreender o fogo em Angola exige olhar não apenas para o clima e a vegetação, mas também para a história, os conflitos e a forma como as comunidades utilizam e gerem o território.
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Uma nova forma de olhar para a história ambiental de Angola
Este trabalho constitui um dos primeiros estudos a demonstrar como a Guerra Civil alterou profundamente não apenas a vida das pessoas, mas também o funcionamento dos ecossistemas.
Ao combinar imagens de satélite com testemunhos de comunidades locais, os investigadores demonstram que compreender os incêndios em Angola exige olhar simultaneamente para a ecologia, a história e a sociedade. O fogo revela-se ser muito mais do que um fenómeno natural: é também um reflexo das transformações humanas e das dinâmicas sociais que moldam a paisagem.
Num contexto em que Angola continua a registar elevados níveis de área ardida todos os anos, sobretudo durante a estação seca, estudos como este contribuem para uma gestão do fogo mais informada e adaptada à realidade nacional, conciliando a conservação da biodiversidade, a segurança das comunidades e os usos tradicionais da terra.
Referência científica
Escobar-Alvarado, L. F., Fontana, L. B., Fisher, J. A., Kaula, E., António, T. E. M., & Dexter, K. G. (2025). Fires of war: how civil war shaped fire regimes in East Angola. Ecology and Society, 30(4), 44. https://doi.org/10.5751/ES-16658-300444
Ecologista e bióloga ambiental angolana, apaixonada por pessoas, natureza e ciência; focada no desenvolvimento de soluções para a conservação da biodiversidade, direitos humanos e justiça climática, mobilizando para a acção. "Liderança ética e empática é parte do meu "print", e a comunicação carismática é simplesmente a minha maneira de ser".










