As zonas húmidas são ecossistemas de transição entre os ambientes terrestre e aquático, fundamentais para a manutenção do equilíbrio ecológico. A sua relevância ecológica, climática, económica e social torna-as pilares essenciais da sustentabilidade global.
De acordo com a Convenção de Ramsar, zonas húmidas são “áreas de pântano, charco, turfeira ou água, sejam naturais ou artificiais, permanentes ou temporárias, com água estagnada ou corrente, doce, salobra ou salgada, incluindo extensões de água marinha, cuja profundidade na maré baixa não exceda os seis metros.”
Em 1971, na cidade iraniana Ramsar, adoptou-se o primeiro tratado intergovernamental que forneceu a estrutura para a conservação e o uso racional das zonas húmidas e seus recursos. Entrou em vigor apenas em 1975, e desde então, quase 90% dos Estados-membros da ONU, de todas as regiões geográficas do mundo, aderiram e se tornaram “Partes Contratantes”. Angola é parte da Convenção desde Junho de 2021.
Cada Estado-parte, pode apresentar propostas de zonas húmidas locais para elevação à Zonas Húmidas de Importância Internacional (Sítios Ramsar), se os mesmos cumprirem pelo menos um dos nove principais critérios ecológicos estabelecidos. Estes sítios são reconhecidos como Património Mundial da UNESCO de relevância mundial, beneficiando de mecanismos de cooperação internacional, incluindo apoio técnico e financeiro para a sua gestão e conservação, e alguns estão enquadrados nas categorias das áreas de conservação da IUCN.
Tipos de zonas húmidas
Com base no Relatório Mundial das Zonas Húmidas 2025 (GWO 2025), a tipologia destes ecossistemas é organizada em três grandes categorias, abrangendo uma extensão global total estimada entre 1,5 e 1,6 mil milhões de hectares.
- Zonas Húmidas Interiores (Inland Wetlands)
Incluem ecossistemas de água doce ou salobra situados longe da costa. Representam a maior parte da área húmida do planeta e são os principais sumidouros de carbono terrestre.
- Turfeiras (peatlands): Ecossistemas com acumulação de matéria orgânica parcialmente decomposta (turfa) devido ao excesso de água. Extremamente importantes na retenção de carbono, ocupam cerca de 500 milhões de hectares.
- Pântanos e charcos (marshes/swamps): Áreas inundadas dominadas por vegetação herbácea (marshes) ou arbórea (swamps). Os pântanos florestais cobrem cerca de 461,65 milhões de hectares.
- Lagos e rios: Corpos de água doce permanentes ou sazonais, incluindo canais de escoamento. Os lagos ocupam aproximadamente 271,53 milhões de hectares, e as pradarias alagadas associadas a rios somam 58,93 milhões de hectares.
Zonas húmidas alpinas e de tundra: Ecossistemas de alta altitude ou latitude, fundamentais, mas frequentemente sub-representados devido à falta de dados globais consolidados.
B. Zonas Húmidas Marinhas e Costeiras (Marine and Coastal Wetlands)
Também chamadas de ecossistemas de “Carbono Azul”, são áreas onde a água doce e salgada se misturam, incluindo regiões marinhas de até 6 metros de profundidade na maré baixa.
- Mangais (mangroves): Florestas de transição entre terra e mar em zonas tropicais e subtropicais, que ocupam cerca de 15,11 milhões de hectares.
- Sapais (salt marshes): Zonas de maré dominadas por vegetação resistente ao sal, cobrindo aproximadamente 5,29 milhões de hectares.
- Pradarias de ervas marinhas (seagrass meadows): Áreas submersas de plantas vasculares essenciais para a biodiversidade, cobrindo 42,8 milhões de hectares.
- Recifes de coral: Integradas nesta categoria quando situadas dentro do limite de 6 metros de profundidade, cobrindo 47,3 milhões de hectares.
- Estuários e lagoas costeiras: Áreas de transição muito produtivas onde a água doce se mistura com a salgada, ocupando cerca de 32,21 milhões de hectares.
Florestas de kelp: Grandes algas castanhas em águas rasas e frias, com 3,32 milhões de hectares, incluídas na tipologia Ramsar quando situadas até 6 metros de profundidade
C. Zonas Húmidas artificiais (Human-made wetlands)
O relatório reconhece a importância crescente destas áreas, que representam cerca de 12% da área total das zonas húmidas mundiais, embora as distinga das naturais quanto à biodiversidade original.
- Arrozais (rice paddies): Áreas inundadas para cultivo de arroz.
- Reservatórios e barragens: Estruturas para armazenar água e gerar energia.
- Salinas e tanques de aquicultura: Áreas para produção de sal ou criação de organismos aquáticos.
Sistemas de tratamento de águas residuais: Infraestruturas que purificam a água usando processos naturais.
Uma particularidade do Relatório Mundial das Zonas Húmidas 2025 (GWO 2025), é o esforço de quantificar tipos antes ignorados, como pequenas zonas húmidas (charcos temporários e depressões hídricas). O relatório destaca a sua importância para a conectividade ecológica e a biodiversidade local, apesar da reduzida dimensão.
Serviços ecossistémicos, económicos e culturais oferecidos pelas zonas húmidas
- Regulação climática e o ciclo do carbono
- Sumidouros críticos: Retêm cerca de 1/3 do carbono mundial. As turfeiras, em particular, armazenam o dobro do carbono de todas as florestas do mundo combinadas.
- Mecanismo de retenção: A saturação de água cria ambientes com pouco oxigénio que travam a decomposição, impedindo a libertação de gases. No entanto, a sua degradação inverte este papel, ativando uma “bomba de carbono” que liberta reservas milenares e acelera o aquecimento global.
- Gestão hídrica e proteção contra desastres
- Filtro e abastecimento: Funcionam como filtros naturais que removem poluentes e sedimentos, sendo a principal fonte de água doce para consumo e agricultura.
- Esponjas naturais: Absorvem volumes massivos de água, meio hectare pode reter 4 milhões de litros, mitigando cheias e libertando água gradualmente durante as secas.
- Escudo costeiro: Mangais, sapais e recifes dissipam a energia de tempestades e evitam a erosão das costas.
- Biodiversidade e Segurança Alimentar
- Hotspots de vida: Abrigam 40% de todas as espécies de plantas e são berçários fundamentais para a fauna. Cerca de 75% das espécies comerciais de peixe dependem destes ecossistemas para crescer.
Conectividade: Pequenas zonas húmidas são vitais como “pontos de salto/paragens” para aves migratórias e espécies em trânsito.
Biodiversidade de diversas zonas húmidas do mundo (fontes: wetlands, SD; Greenspace, 2023; National Geographic, 2018 )
Motor Económico e Património Cultural
- Emprego e subsistência: Contribuem para os meios de subsistência de centenas de milhões de pessoas em todo o mundo, sustentando actividades como o turismo, a pesca e a orizicultura. Estimativas globais indicam que estes sectores garantem emprego a mais de 260 milhões de pessoas e o sustento direto de cerca de mil milhõe
- Serviços Culturais: Em 175 países, estas zonas são pilares de identidade cultural, património, educação e conhecimento tradicional, reforçando o bem-estar mental e a recreação das populações.
Perda global das zonas húmidas e da biodiversidade
Infelizmente, as zonas húmidas têm enfrentado ameaças crescentes e estão a desaparecer três vezes mais rápido do que as florestas. Nos últimos 50 anos, mais de um terço das zonas húmidas do mundo foram perdidas devido à poluição, ao aterro para construção civil e agricultura, às espécies invasoras e às alterações climáticas.
Simultaneamente, um milhão de espécies de plantas e animais estão ameaçadas de extinção (incluindo quase todas as espécies de peixes migratórios listadas) em todo o mundo. 83% das populações de espécies de água doce sofreram um colapso devastador, 36% das espécies costeiras diminuíram drasticamente e, 25% das espécies dependentes desses ecossistemas (espécies migratórias) estão ameaçadas de extinção. Todo esse triste panorama tem se acentuado desde 1970.
Zonas húmidas de Angola
Em Junho de 2021, ano em que Angola se tornou parte contratante da Convenção de Ramsar, o país apresentou uma lista estratégica de 11 zonas húmidas candidatas a Sítio Ramsar. Contudo, até à data, apenas o Lisima Lya Mwono no Moxico (proposto a Sítio Ramsar, posteriormente, por ocasião da Cimeira da SADC, em maio de 2025), que não consta na lista inicial das 11 zonas húmidas, obteve a admissão oficial como Zona Húmida de Importância Internacional em Janeiro de 2026.
Este cenário revela um hiato preocupante na protecção ambiental: enquanto o reconhecimento internacional tarda, a vasta maioria das zonas húmidas angolanas permanece institucionalmente desprotegida e vulnerável a práticas degradantes que ameaçam a sua integridade ecológica.
As 11 áreas identificadas pelo Estado angolano, refletem uma diversidade geográfica notável, unindo o litoral ao interior do país:
- Lagoa do Carumbo (Lunda-Norte)
- Lagoa do Arco (Namibe)
- Saco dos Flamingos em Ramiros (Luanda)
- Foz do Rio Chiloango (Cabinda)
- Complexo Lagunário de Saurico em Panguila (Bengo)
- Lagoa de Kalumbo (Luanda)
- Baía do Lobito (Benguela)
- Sistema de Zonas Húmidas de Kumbilo em Dirico (Cuando)
- Troço do Rio Kwanza do Parque Nacional da Quiçama (Luanda)
- Lagoa do Kilunda na Funda (Luanda)
- Chanas do Parque Nacional da Cameia (Moxico)
As zonas húmidas são mais do que simples terrenos inundáveis ou áreas de água estagnada: são sistemas vivos que sustentam a água que bebemos, os alimentos que produzimos, a biodiversidade que admiramos e os serviços naturais de que dependemos para sobreviver. A perda acelerada destes ecossistemas no mundo inteiro é um sinal de alerta para a necessidade de reforçar políticas de conservação, investimentos em gestão sustentável e mobilização das comunidades.
Leia o nosso artigo sobre Lisima Lya Mwono, e saiba tudo sobre a primeira Zona Húmida de importância Internacional de Angola.

















