A EcoAngola e os Guardiões da Costa Mwangolé, duas ONGs nacionais de conservação ambienal, estão a realizar uma investigação ambiental independente sobre a alteração extensa da cor da água na Baía de Luanda, acompanhada de peixes mortos e sinais de afectação de outros organismos marinhos. A tonalidade azul-turquesa intensa e opaca registada inicialmente já está a sofrer alterações, mas a causa da ocorrência permanece por determinar. Até ao momento, o trabalho conjunto inclui levantamento visual, recolha de testemunhos, documentação fotográfica e de vídeo, comunicação às autoridades e angariação de fundos. Devido a limitações financeiras, ainda não foram realizadas medições ou análises laboratoriais, sendo este o próximo passo.
Observações e informação recolhida
As primeiras três denúncias foram recebidas pela EcoAngola e pelos Guardiões da Costa Mwangolé no dia 25 de Setembro. Uma delas situava o início da alteração da água no dia 24 de Setembro. Assim, foram realizadas verificações aos locais nos dias 25 e 26 de Setembro, acompanhados de fotografias e vídeos, que identificaram o que havia sido descrito pelas denúncias:
- Coloração azul-turquesa intensa e opaca nas zonas do Clube Náutico, Clube Naval e centro da Baía;
- Alteração visível ao longo de um percurso realizado por uma embarcação, sem um ponto de origem identificável;
- Pequena quantidade de espuma junto à margem;
- Peixes mortos na água e junto às margens próximas dos clubes;
- Peixes a nadar de forma anormal, próximos da superfície e da margem.
Visitas contínuas também foram realizadas nos dias 28 e 29 de Setembro, onde foram encontrados novamente vários peixes mortos. Nos locais inspeccionados, não foram observadas estrelas-do-mar (que desapareceram) e grande parte das anémonas observadas aparentava estar morta.
Peixes diversos como baiacús e papagaio mortos, no dia 28 de Setembro de 2026.
Estas observações referem-se aos locais visitados e não permitem quantificar a mortalidade em toda a Baía nem determinar o mecanismo responsável. Não foram identificados odores específicos e não há informação sobre eventuais sintomas em pessoas expostas. Apesar disso, a EcoAngola e os Guardiões da Costa Mwangolé emitiram um comunicado para evitar pescar, consumir o peixe e contacto com as zonas afectadas.
Anémonas e peixes mortos, as 9:30, no dia 29 de Setembro de 2026. Fonte: EcoAngola e GCM.
Também foram recebidas duas denúncias de uma ocorrência de peixes e chocos mortos na praia de Sangano e na praia de Cabo Ledo, no dia 26 de Setembro de 2026. Ainda não foi feito um seguimento destas denúncias e não se sabe se o motivo esta relacionado, ou não.
Comunicação às autoridades
A EcoAngola e os Guardiões da Costa Mwangolé enviaram uma comunicação aos Ministérios do Ambiente e Ministério das Pescas e Recursos Marinhos no dia 26 de Setembro. A recepção foi confirmada, assim como a indicação de que seria realizada uma investigação. Até às 17 horas do dia 30 de Setembro de 2026, as duas organizações não receberam nova comunicação sobre o andamento da investigação ou os seus resultados.
Hipóteses em avaliação
A investigação independente na Baía de Luanda pretende avaliar diferentes possibilidades:
- Proliferação de algas: Hipótese que necessita de avaliação biológica, incluindo identificação e contagem de fitoplâncton. Esta hipótese é levantada devido aos ciclos de afloramento de algas na costa de Angola.
- Entrada ou acumulação de águas residuais e outros contaminantes: Possibilidade a avaliar através de indicadores de qualidade da água e de informação sobre descargas. Esta hipótese é levantada devido a estagnação da água na Baía de Luanda devido ao bloqueio de circulação na ponte de ilha para a Chicala.
- Descargas associadas à limpeza ou manutenção de embarcações: Hipótese que exige identificação de eventuais fontes e análises adequadas. Esta hipótese é levantada devido a alegada limpeza de navios e embarcações na Baía de Luanda.
- Foi também recolhida uma alegação de pescadores sobre possível utilização de produtos químicos para limpeza temporária da água, alegadamente relacionada com as corridas de E1 Luanda GP 2026, que decorreram nos dias 12 e 13 de Setembro de 2026, na Baía de Luanda. A EcoAngola e os Guardiões da Costa Mwangolé não dispõem de evidência que confirme essa utilização ou a sua relação com a ocorrência.
Estas hipóteses têm diferentes graus de sustentação. Nesta fase, nenhuma foi confirmada, e a investigação deverá considerar a possibilidade de vários factores actuarem em conjunto.
Análises previstas e limitações
O orçamento obtido contempla cinco amostras de água, em locais diferentes, com análises de nutrientes, metais, indicadores microbiológicos e parâmetros físico-químicos. Estão incluídos nitrato, nitrito, fosfato total, mercúrio, chumbo, cádmio, cromo total, alumínio, zinco, cobre, coliformes fecais, Escherichia coli, oxigénio dissolvido, temperatura, pH, salinidade e turbidez.Esta análise permitirá caracterizar a água nos pontos e no momento da recolha. Não inclui identificação e contagem de fitoplâncton, nem análises específicas de hidrocarbonetos, detergentes ou outros produtos químicos. A EcoAngola e os Guardiões da Costa Mwangolé procuram possibilidades de apoio técnico para complementar esse âmbito.
As análises também terão uma limitação temporal: os resultados representarão as condições encontradas na recolha, que poderão diferir das existentes no início da ocorrência, que já foi há 5 dias atrás.
Fundos angariados e necessidade de apoio
A angariação lançada após o vídeo publicado em 27 de Setembro reuniu 380.000 Kz e 5 USD, através de 25 doadores. Os vídeos ultrapassaram as 60 mil visualizações e tiveram ampla partilha. Apesar do alcance, o montante recebido ainda não permite financiar a investigação completa. O orçamento para cinco amostras desta análise é de 1.336.333,98 Kz, tendo sido recebidos 380.000,00 Kz, e assim ainda é necessário o 956.333,98 Kz.
Está também a ser considerada uma opção com menor âmbito, retirando as sete análises de metais, com o custo de 725.270,04 Kz. Essa redução permitiria diminuir a necessidade financeira, mas deixaria os metais fora da avaliação.
Próximos passos
A EcoAngola e os Guardiões da Costa Mwangolé pretendem avançar com a recolha em 1 de Outubro, dependendo da mobilização de fundos e da confirmação dos procedimentos técnicos com o laboratório. A prioridade é recolher dados enquanto a ocorrência continua a evoluir. A mudança do aspecto da água torna necessário documentar as condições actuais e reconhecer que parte da informação sobre o início do fenómeno poderá já não ser recuperável.
Os resultados serão divulgados numa segunda publicação conjunta, com os parâmetros analisados, a interpretação dos dados e as limitações da investigação.
Cidadãos, empresas e instituições podem apoiar através dos canais oficiais de doação da EcoAngola. Os fundos destinam-se à investigação independente conduzida em conjunto pela EcoAngola e pelos Guardiões da Costa Mwangolé.
Para apoiar a investigação independente sobre a Baía de Luanda:
AO06 0040 0000 8852 8059 1068 5
Para parcerias e outras comunicações:
info@ecoangola.com / +244 939 976 999
guardioesdacostamwangole@gmail.com
Para mais informações, visite: www.ecoangola.com
Nota: No final da investigação independente, será feita uma apresentação de resultados e justificação de contas.
Agradecemos pelas partilhas e apoios financeiros, materiais e morais durante o desenvolvimento desta investigação.
Mais verde, mais futuro!
Kalunga, Ondjo Yangue!
Erica Tavares é Bióloga Ambiental e Ecologista, Directora Executiva e Co-fundadora da EcoAngola (ONG sem fins lucrativos), Sócia e Técnica Líder na EcoJango (consultora privada). Dedica-se ao desenvolvimento de iniciativas que promovem a conservação da biodiversidade, a educação ambiental, a investigação científica e a acção climática, contribuindo para um impacto ambiental e social positivo em Angola.









