Cetáceos em Angola: Um Património Marinho Pouco Conhecido
Os estudos científicos mais recentes confirmam a ocorrência de pelo menos 28 espécies de cetáceos nas águas angolanas, incluindo baleias-jubarte, baleias-azuis, cachalotes, orcas e o raro golfinho-corcunda-do-Atlântico (Sousa teuszii). A posição geográfica de Angola, entre as águas tropicais do Golfo da Guiné e a influência fria da Corrente de Benguela, faz da costa angolana uma importante área de alimentação, reprodução e migração para mamíferos marinhos do Atlântico Sul. Segundo The Cetaceans (Whales and Dolphins) of Angola, de Caroline R. Weir, Angola situa-se numa zona de transição entre as águas tropicais do Golfo da Guiné e as águas frias e produtivas da Corrente de Benguela, criando condições favoráveis para espécies tropicais, subtropicais e temperadas.
Angola: um ponto de encontro de baleias e golfinhos
O território marítimo angolano estende-se desde Cabinda até à fronteira com a Namíbia, incluindo ambientes costeiros, plataforma continental, taludes oceânicos e águas profundas superiores a 4.000 metros. Esta diversidade de habitats explica a elevada riqueza de cetáceos observada no país.
Principais espécies presentes na costa angolana
1. Baleias
a) Baleia-jubarte (Megaptera novaeangliae)
As águas do norte de Angola, especialmente Cabinda e Soyo, são consideradas importantes para reprodução. Foram registados machos em canto, fêmeas com crias e outros comportamentos associados à época reprodutiva. Esta é a baleia mais conhecida e uma das espécies mais observadas em Angola. Características:
- Migração anual entre a Antártida e as áreas tropicais de reprodução;
- Reprodução, parto e criação de crias em águas quentes;
- Deslocação ao longo da costa angolana entre Maio e Janeiro, com pico de observações entre Julho e Outubro.
b) Baleia-azul (Balaenoptera musculus)
A baleia-azul é uma espécie raramente observada em Angola. Os registos recentes confirmados provêm principalmente de águas profundas ao largo da costa central angolana, embora os dados históricos de captura indiquem que foi anteriormente relativamente frequente nas águas do sul do país. Os estudos indicam:
- Registos históricos de caça ao largo de Angola;
- Observações recentes em águas profundas;
- Há sinais de uso das águas angolanas para reprodução
c) Baleia-de-Bryde (Balaenoptera brydei)
Fonte: National Geographic
É atualmente uma das baleias mais frequentes em Angola. Ao contrário da baleia-jubarte:
- Ocorre durante todo o ano;
- Está associada à disponibilidade de alimento;
- Utiliza águas costeiras e oceânicas
2. Cachalotes
a) Cachalote (Physeter macrocephalus)
Um dos predadores mais impressionantes dos oceanos. Em Angola:
- Ocorre durante todo o ano;
- Prefere águas profundas entre 800 e 3.800 metros;
- Foram observadas agregações com dezenas de indivíduos.
3. Golfinhos
a) Golfinho-corcunda-do-Atlântico (Sousa teuszii)
Classificado como Criticamente Em Perigo (CR) pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).
É uma das espécies mais importantes para a conservação marinha em Angola.
Os trabalhos liderados por Caroline R. Weir identificaram uma pequena população residente na região dos Flamingos, Namibe, estimada em cerca de 10 indivíduos foto-identificados durante os estudos realizados em 2008, ocupando apenas cerca de 40 km de costa e vivendo em águas rasas próximas da praia.
b) Golfinho-de-Heaviside (Cephalorhynchus heavisidii)
Espécie típica das águas frias da Corrente de Benguela. Em Angola:
- Ocorre apenas no extremo sul;
- Representa o limite norte da distribuição da espécie.
Outras espécies de golfinhos comumente avistados em Angola:
4. Orcas:
A presença de orcas (Orcinus orca) está cientificamente confirmada em águas angolanas. Embora sejam menos observadas do que baleias-jubarte e golfinhos costeiros, existem diversos registos documentados. Segundo o levantamento de Caroline R. Weir, também chamada “Ecologista de Cetáceos”:
- Foram compilados pelo menos 20 registos entre 1991 e 2009;
- As observações ocorreram entre aproximadamente 5°S e 12°S;
- Os grupos variaram de um a 12 indivíduos;
- Foram observadas desde águas costeiras até águas oceânicas com mais de 2.000 metros de profundidade.
Um dos registos mais notáveis ocorreu em janeiro de 2005, quando um grupo de cinco orcas foi observado a atacar cachalotes ao largo do norte de Angola.
Em Julho de 2026, em Luanda, foram registadas orcas na zona de ligação entre a Península do Mussulo e a Ilha de Luanda, observadas por operadores turísticos e cidadãos envolvidos na observação de cetáceos. As imagens e vídeos registados documentam um comportamento activo de perseguição a golfinhos, fenómeno compatível com estratégias cooperativas de caça observadas noutras regiões do mundo. Este registo constitui um dos mais interessantes realizados em águas costeiras de Luanda nos últimos anos. Foram observados cerca de seis indivíduos em comportamento cooperativo de deslocação e perseguição a golfinhos, um comportamento compatível com estratégias de caça descritas noutras populações de orcas.Imagens e videos em anexo
A sua presença pode estar relacionada com:
- Áreas de elevada produtividade – A presença de orcas pode estar associada a áreas com elevada disponibilidade de alimento e elevada produtividade biológica;
- Passagem de baleias-jubarte – Acontece em Angola;
- Concentração de cachalotes;
- Abundância de golfinhos oceânicos.
Tabela 1: Cetáceos Confirmados em Angola e Estado Global de Conservação:
| Nº | Espécie | Nome Científico | Estado Global IUCN | Frequência em Angola |
|---|---|---|---|---|
| 1 | Baleia-jubarte | Megaptera novaeangliae | LC | Muito comum na migração |
| 2 | Baleia-de-Bryde | Balaenoptera brydei | LC | Muito comum |
| 3 | Cachalote | Physeter macrocephalus | VU | Comum |
| 4 | Golfinho-pintado-do-Atlântico | Stenella frontalis | LC | Muito comum |
| 5 | Golfinho-comum | Delphinus spp. | LC | Muito comum |
| 6 | Golfinho-riscado | Stenella coeruleoalba | LC | Comum |
| 7 | Baleia-piloto-tropical | Globicephala macrorhynchus | LC | Comum |
| 8 | Golfinho-de-Risso | Grampus griseus | LC | Comum |
| 9 | Roaz-corvineiro | Tursiops truncatus | LC | Comum |
| 10 | Orca | Orcinus orca | DD* | Ocasional |
| 11 | Golfinho-corcunda-do-Atlântico | Sousa teuszii | CR | Raro |
| 12 | Golfinho-de-Heaviside | Cephalorhynchus heavisidii | NT | Raro |
| 13 | Falsa-orca | Pseudorca crassidens | NT | Ocasional |
| 14 | Golfinho-de-bico-comprido | Steno bredanensis | LC | Ocasional |
| 15 | Golfinho-de-Clymene | Stenella clymene | LC | Ocasional |
| 16 | Cabeça-de-melão | Peponocephala electra | LC | Ocasional |
| 17 | Baleia-azul | Balaenoptera musculus | EN | Incomum |
| 18 | Baleia-fin | Balaenoptera physalus | VU | Incomum |
| 19 | Baleia-sei | Balaenoptera borealis | EN | Incomum |
| 20 | Cachalote-anão | Kogia sima | DD | Raro |
| 21 | Baleia-de-bico-de-Cuvier | Ziphius cavirostris | LC | Rara |
| 22 | Baleias-de-bico (Mesoplodon) | Mesoplodon spp. | DD | Raras |
| 23 | Golfinho-cinzento (Dusky) | Lagenorhynchus obscurus | DD | Raro (sul) |
| 24 | Golfinho-malhado-pantropical | Stenella attenuata | LC | Pouco frequente |
| 25 | Golfinho-fiandeiro | Stenella longirostris | LC | Muito raro |
| 26 | Golfinho-de-Fraser | Lagenodelphis hosei | LC | Muito raro |
| 27 | Baleia-franca-austral | Eubalaena australis | LC | Muito rara |
| 28 | Baleia-anã-antártica | Balaenoptera bonaerensis | NT | Muito rara |
Época e áreas de observação de cetáceos em Angola:
De Julho a Outubro, a costa angolana apresenta maior presença de espécies migratórias, incluindo as baleias-jubarte e diversas espécies de golfinhos. Algumas espécies, como cachalotes, baleias-de-Bryde, golfinhos oceânicos e orcas, podem ser observadas ao longo de todo o ano, tanto na época húmida como na seca.
Principais áreas de observação:
● Cabinda e Soyo são zonas importantes para a observação de baleias-jubarte, cachalotes e outros cetáceos oceânicos.
● Na região de Luanda e Bengo, incluindo Cabo Ledo, podem ser observados golfinhos costeiros e, ocasionalmente, baleias durante os períodos de migração.
● Mais a sul, Lobito e Benguela apresentam elevada diversidade de cetáceos, devido à transição entre sistemas tropicais e a influência da corrente de Benguela.
● Já no Namibe, destacam-se espécies como o golfinho-corcunda-do-Atlântico (Sousa teuszii), classificado como Criticamente em Perigo, o golfinho-de-Heaviside e várias espécies de grandes baleias.
Por que aparecem cetáceos mortos nas praias?
O aparecimento de cetáceos mortos pode ter diferentes causas:
● Causas naturais: doenças, infecções, parasitas, idade avançada e falta de alimento;
● Ameaças associadas à actividade humana: destaca-se a captura acidental em redes de pesca, “Bycatch/Pesca acidental” seja por embarcações industriais ou artesanais, que costumam capturar golfinhos em suas redes acidentalmente; Outros riscos incluem colisões com embarcações, actividades de exploração petrolífera (que tem como principal impacto o levantamento sísmico), degradação dos habitats costeiros, poluição marinha e ruído submarino.
Encalhe de cetáceos:
Nem todos os cetáceos encontrados nas praias morreram no local. Alguns podem morrer no mar e ser transportados pelas correntes até à costa. Por isso, o local onde o animal é encontrado nem sempre corresponde ao local ou momento da morte.
Cada encalhe pode fornecer informações importantes sobre a espécie, a sua distribuição, o estado de conservação e possíveis ameaças. Por isso, o animal deve ser identificado e registado antes de qualquer remoção.
O que fazer ao encontrar um cetáceo encalhado:
- Não tocar nem manipular o animal.
- Manter distância e afastar pessoas, cães e outros animais.
- Fotografar e registar o local, incluindo, se possível, coordenadas GPS, data e hora.
- Contactar as autoridades ambientais, universidades ou organizações especializadas.
- Não arrastar, cortar, enterrar ou remover o animal antes da avaliação técnica.
- Permitir a recolha de amostras ou realização de uma necrópsia, quando necessário.
Um cetáceo morto, sobretudo quando está em decomposição, pode representar riscos para a saúde pública. O contacto directo com o cadáver ou com os seus fluidos pode expor as pessoas a microrganismos e outros agentes potencialmente nocivos.
Por isso, a remoção deve ser feita por equipas preparadas e devidamente protegidas, seguindo as orientações das autoridades ambientais e sanitárias.
Após a avaliação científica e sanitária, o cadáver poderá ser removido ou enterrado de forma controlada. Quando o enterramento for adequado, deve ocorrer num local apropriado, afastado de zonas balneares e residenciais, e o local deve ser registado e sinalizado.
Relatos de comunidades costeiras de Benguela, Namibe e Luanda indicam que alguns cetáceos encalhados permanecem nas praias durante períodos prolongados, expostos à decomposição e às marés. Em alguns casos, acabam por ser removidos ou enterrados pela própria população devido ao mau cheiro e à preocupação com riscos sanitários.
Quando estas intervenções são feitas sem acompanhamento técnico, podem perder-se informações importantes sobre a espécie, a localização e a possível causa da morte, bem como, representar um risco à saúde pública.
Registos de encalhes de cetáceos em Angola:
Existem registos de vários encalhes de cetáceos na costa de Angola, embora nem todos estejam documentados publicamente ou tenham sido acompanhados por equipas especializadas. Alguns casos são relatados por organizações e comunidades locais, mas a ausência de registos oficiais dificulta a confirmação e caracterização de todos os acontecimentos.
Os registos mais recentes, confirmados e publicamente divulgados, incluem:
- 2017 — Ilha do Mussulo, Luanda: Baleia-jubarte, com cerca de 10 metros, encontrada morta na praia.
- 2019 — Baía Farta, Benguela: Cinco baleias encalharam no Chamume. Quatro morreram.
- 2019 — Ilha de Luanda: Baleia de cerca de 12 metros encontrada morta e em decomposição.
- 2024 — Ilha do Mussulo, Luanda: Baleia encontrada morta e em estado de putrefacção. A espécie não foi confirmada.
- 2025 — Ilha de Luanda: Baleia de cerca de 17 metros encontrada morta. O animal foi enterrado após avaliação técnica.
- 2025 — Praia da Caxiva, Benguela: Baleia-jubarte encalhou viva e presa numa rede de pesca. Após cerca de 58 horas de operação, foi libertada e devolvida ao mar.
- 2026 — Praia da Viúva, Lucira, Namibe: Baleia encontrada morta e removida pela Administração Municipal da Lucira em 22 de Junho.
2026 — Golfinho encontrado em Cabo Ledo (registo mais recente):
A 2 de Agosto de 2026, pelas 6h00, moradores encontraram um golfinho morto na Praia dos Surfistas, em Cabo Ledo. O animal apresentava decomposição avançada e uma lesão visível na região abdominal.
As fotografias disponíveis, as características morfológicas observadas e a contagem dentária relatada apresentam características compatíveis com o golfinho-corcunda-do-Atlântico (Sousa teuszii), espécie classificada como Criticamente Ameaçada (CR) pela IUCN.
Contudo, a identificação ainda não é definitiva. A confirmação exigiria avaliação por especialistas, incluindo medições completas do animal e, quando possível, análise do crânio e de outras características osteológicas. Da mesma forma, a lesão abdominal não permite determinar a causa da morte. Sem uma necrópsia, não é possível saber se a morte esteve relacionada com actividade humana, predação, doença ou outra causa natural.
Por isso, a designação mais prudente é “provável golfinho-corcunda-do-Atlântico (Sousa teuszii)”. Os Guardiões da Costa Mwangolé contactaram a equipa da investigadora Caroline R. Weir para apoiar a identificação, mas, até ao momento da publicação, não tinham recebido resposta. Se a identificação for confirmada, este poderá ser um registo importante para conhecer melhor a distribuição desta espécie criticamente ameaçada nas águas de Angola.
De forma geral, cada encalhe pode fornecer informações sobre a biodiversidade marinha, o estado das populações e as possíveis ameaças que enfrentam. Por isso, registar, identificar e avaliar os animais antes da sua remoção é fundamental.
Um apela à conservação:
Angola alberga uma das maiores diversidades de cetáceos de África, mas continua a existir uma necessidade urgente de reforçar a investigação científica, a monitorização das populações marinhas, a resposta a encalhes e a proteção dos habitats costeiros e oceânicos. Conhecer melhor estas espécies é o primeiro passo para garantir a sua conservação.
A proteção dos cetáceos não depende apenas das autoridades ou da comunidade científica. Pescadores, operadores turísticos, comunidades costeiras, universidades, organizações da sociedade civil e cidadãos têm um papel fundamental na recolha de informação, na comunicação de avistamentos e encalhes e na promoção de boas práticas que reduzam as ameaças aos mamíferos marinhos.
Sobre esta colaboração
Este artigo resulta de uma colaboração entre os Guardiões da Costa Mwangolé e a EcoAngola, duas organizações da sociedade civil angolana dedicadas à conservação da natureza, à investigação científica, à educação ambiental e à promoção de políticas públicas para a proteção da biodiversidade. Através desta parceria, ambas as organizações pretendem aproximar a ciência da sociedade, divulgar conhecimento baseado em evidências e incentivar uma participação mais ativa dos cidadãos na conservação do património natural de Angola.
Referências:
The Cetaceans (Whales and Dolphins) of Angola, Caroline R. Weir (2019).
Range-Wide Conservation Efforts for the Critically Endangered Atlantic Humpback Dolphin (Sousa teuszii), Minton et al. (2022).









