Através do Decreto Presidencial n.º 101/26, de 28 de Maio, o Presidente da República aprovou o Plano de Acção Nacional para a Conservação da Girafa 2026-2030, destinado a proteger e recuperar as populações da espécie em Angola. A medida surge 24 anos após o fim da guerra civil, que provocou graves perdas na fauna selvagem do país.
Mais de duas décadas de conflito armado em Angola deixaram marcas profundas tanto nos habitantes como na fauna selvagem, com particular impacto na província do Cunene. Entre 1975 e 2002, as girafas registaram um acentuado declínio, culminando na extinção local da girafa angolana no Parque Nacional da Mupa (Cunene).
Segundo o Plano de Acção Nacional para a Conservação da Girafa, a população da girafa-angolana (Giraffa giraffa angolensis) foi estimada em cerca de 50 indivíduos, com base em dados científicos de 2018. O documento refere ainda que, durante a expansão das fazendas de pecuarização e dos resorts destinados ao ecoturismo e ao lazer, registou-se um aumento da introdução e reintrodução de animais selvagens, incluindo girafas. Este fenómeno, descrito, no documento, como “relativamente recente”, ocorreu nas províncias de Benguela, Huíla, Cuando e Cubango, totalizando cerca de 100 indivíduos introduzidos em fazendas e resorts, sem, no entanto, o diploma especificar a subespécie desses animais.
O plano reconhece, contudo, que persistem incertezas quanto à quantidade efectiva nacional de girafas. O documento admite a existência de “discrepâncias em relação aos dados disponíveis”, o que dificulta a quantificação das duas subespécies reconhecidas no país. Refere ainda que a população actual do Parque Nacional do Luengue-Luiana é estimada em cerca de 300 indivíduos, mas não esclarece se a estimativa diz respeito à girafa-angolana (Giraffa giraffa angolensis), à girafa-sul-africana (Giraffa giraffa giraffa) ou ao conjunto de animais existentes naquela área.
Um diploma para ”Recuperação”
As girafas, em Angola, habitam sobretudo as regiões de savana, ambientes caracterizados por extensas áreas de vegetação arbórea e herbácea, onde também vivem diversas espécies de antílopes, zebras, elefantes e outros grandes mamíferos. No entanto, décadas de guerra civil provocaram graves impactos sobre a vida selvagem angolana. Muitas populações de animais diminuíram drasticamente devido à caça à destruição dos habitats e à ausência de fiscalização.
“Os Parques Nacionais foram abandonados e a falta de recursos e a ausência de uma administração competente contribuiu para degradação…”, lê-se no documento.
O diploma justifica a medida com o impacto da instabilidade político-militar que afectou o país durante quase três décadas, período em que as populações de girafa sul-africana (Giraffa giraffa giraffa) nos Parques Nacionais do Luengue-Luiana e da Mavinga (ambos na província do Cuando e Cubango) sofreram uma forte redução. No mesmo contexto, registou-se a extinção local da girafa angolana (Giraffa giraffa angolensis) no Parque Nacional da Mupa (Cunene), outrora uma das suas áreas históricas de ocorrência.
O Plano de Acção Nacional para a Conservação da Girafa estabelece um conjunto de medidas para recuperar e proteger a espécie em Angola até 2030. Entre as principais metas estão a localização e identificação das subespécies e das populações de girafas existentes nos Parques Nacionais e áreas adjacentes até 2027, a criação de mecanismos para reforçar a conservação da espécie até 2029 e a aprovação de legislação sobre o tipo de armas a serem utilizadas pelos fiscais das Áreas de Conservação no exercício das suas funções.
O plano prevê ainda a criação de um sistema de monitorização das populações de girafas e da investigação sobre a sua biologia, comportamento e dinâmica populacional, bem como o reforço da capacidade técnica dos Parques Nacionais. Entre as medidas previstas constam a utilização de colares GPS para acompanhar os movimentos dos animais, o fortalecimento da fiscalização para combater a caça furtiva e a degradação dos habitats, a implementação da estrutura aprovada para os serviços dos Parques Nacionais e a promoção de acções de educação e sensibilização ambiental, com o objectivo de aumentar a consciência das comunidades locais sobre a importância da protecção, preservação e conservação da girafa até 2029.
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O documento refere ainda que parte dessas medidas está alinhada com o Plano Estratégico da Área de Conservação Transfronteiriça Kavango-Zambeze (KAZA/2022-2026), cuja elaboração contou com a participação de Angola. Entre as prioridades definidas estão o aprofundamento do conhecimento sobre as populações de girafas no país e a identificação das lacunas de informação.
A necessidade de garantir a sua implementação
A aprovação do Plano de Acção Nacional para a Conservação da Girafa representa um marco importante para a conservação da biodiversidade em Angola. No entanto, como acontece com muitas estratégias nacionais, o verdadeiro desafio começa agora: transformar os objectivos definidos no papel em resultados concretos no terreno.
A recuperação das populações de girafa dependerá da disponibilidade de financiamento, do reforço da capacidade institucional dos Parques Nacionais, da contratação e formação contínua de fiscais, da investigação científica, da monitorização regular das populações e da cooperação entre o Governo, comunidades locais, investigadores, organizações da sociedade civil e parceiros internacionais.
Será igualmente fundamental produzir dados científicos actualizados sobre a distribuição e abundância das duas subespécies presentes em Angola, melhorar os sistemas de combate à caça furtiva, restaurar habitats degradados e assegurar que as comunidades que vivem nas áreas de ocorrência da espécie participem activamente nos esforços de conservação e beneficiem deles.
A conservação da girafa não se resume à protecção de uma única espécie. Trata-se de preservar ecossistemas, fortalecer as áreas protegidas e Angola precisa de cumprir com os seus compromissos para recuperar o seu património natural após décadas de conflito.
O sucesso deste Plano será medido não pelo número de páginas do diploma, mas pelo número de girafas que conseguirmos proteger e recuperar nos próximos anos.
Fontes:
- https://www.jornaldeangola.ao/noticias/3/sociedade/676243/parque-nacional-da-mupa-recebe-dez-girafas-este-ano
- https://ecoangola.com/os-elefantes-que-a-guerra-ensinou-a-desaparecer-em-silencio/
- https://poligrafoafrica.com/fact-check/pr-aprova-plano-nacional-para-a-conservacao-da-girafa-avaliado-em-23-mil-milhoes-de-kwanzas/
- https://www.researchgate.net/publication/369072099_Ecology_of_Angola_Terrestrial_Biomes_and_Ecoregions
- https://lex.ao/docs/presidente-da-republica/2026/decreto-presidencial-n-o-101-26-de-28-de-maio/
https://ecoangola.com/lista-vermelha-de-especies-ameacadas-de-angola/ - https://ecoangola.com/angola-reforca-combate-aos-crimes-ambientais-com-plano-estrategico/
- https://web.facebook.com/watch/?v=1185548080084018
- https://www.researchgate.net/publication/369072099_Ecology_of_Angola_Terrestrial_Biomes_and_Ecoregions
https://ecoangola.com/girafas-em-angola/
https://www.zoo.pt/pt/conhecer/animais/mamiferos/girafa-de-angola/
https://www.selwo.es/en/especies-y-territorios/animales/jirafa-de-angola
A Eco Angola é uma organização que promove a sustentabilidade com objetivo de preservar o ambiente e promover o bem estar social.










