A região Sul de Angola, que inclui as províncias do Cunene, Huíla e Namibe, enfrenta uma das crises climáticas mais severas da sua história, marcada pela ausência prolongada de chuvas.
Esta situação provocou uma crise ambiental e humanitária sem precedentes, que atingiu o seu pico em 2021, levando organizações como a UNICEF, o Banco Mundial e várias organizações da sociedade civil a alertarem para a grave situação vivida pelas comunidades locais. Como resposta, foram desenvolvidos programas urgentes e ações de ajuda humanitária, com o objetivo de mitigar os impactos da seca mais severa dos últimos 35 anos na região.
Natureza Cíclica e Vulnerabilidade Climática no Sul de Angola
Dados meteorológicos e relatórios oficiais confirmam que as secas no Sul de Angola — especialmente nas províncias do Cunene, Huíla e Namibe — são fenómenos cíclicos e recorrentes. Estudos climáticos mostram períodos de precipitação abaixo da média desde os anos 1990, com secas registradas em 1992/93, 1998/99, 2012/13, 2015/16 e 2018/19. Estes eventos estão frequentemente associados ao fenómeno climático El Niño, que reduz as chuvas na África Austral e aumenta a probabilidade de secas prolongadas, além de serem agravados pelas mudanças climáticas.
Na última década, a situação agravou-se, com chuvas abaixo da média desde 2018 até 2020–2021, culminando na seca de 2021/22, considerada uma das mais graves das últimas décadas. Este episódio afetou mais de 1,3 milhões de pessoas, destruindo colheitas e pastagens, e agravando a insegurança alimentar na região
Os impactos deste fenómeno não se limitaram às fronteiras de Angola, estendendo-se de forma devastadora a vários países da África Austral, nomeadamente o Lesoto, o Maláui, a Namíbia, a Zâmbia, o Zimbabwe e Moçambique. Até Março de 2025, a crise havia deixado na região mais de 27 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar e cerca de 21 milhões de crianças afectadas pela malnutrição. Como o ciclo do fenómeno El Niño oscila geralmente entre dois e sete anos, o Sul de Angola vê-se ciclicamente confrontado com períodos de aridez associados a esse padrão climático, o que torna a gestão de riscos meteorológicos uma prioridade estratégica para a segurança alimentar e ambiental da região.
De acordo com o Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC), De acordo com o IPCC, as regiões semiáridas da África, incluindo o Sul de África, estão entre as mais vulneráveis ao aquecimento global. As projeções para o século XXI indicam riscos crescentes, como:
- Eventos Extremos: aumento na frequência e intensidade de secas severas e inundações repentinas.
- Intensificação Térmica: cada grau de aquecimento global aumenta a gravidade desses fenômenos.
- Limiares Críticos: estima-se que aumentos de 2 °C ou mais provoquem mudanças profundas, expandindo zonas de aridez.
- Secas Agrícolas e Ecológicas: maior ocorrência de secas que afetam a produção de alimentos e o equilíbrio dos ecossistemas.
Esta dinâmica aumenta a insegurança alimentar e hídrica, tornando urgente a adoção de estratégias de adaptação robustas que considerem a fragilidade desses ecossistemas frente às mudanças climáticas.
Características socioambientais e impactos da seca no Sudeste de Angola
O sudoeste de Angola caracteriza-se por paisagens amplas, abertas e climaticamente secas, que incluem desertos, planaltos e zonas de savana semi-árida. A região estende-se aproximadamente 550 km de leste a oeste e 450 km de norte a sul, abrangendo principalmente as províncias do Namibe, Cunene e Huíla, cobrindo uma área de 213,086 km².
Segundo John e Sophie Mendelsohn (2019), as comunidades rurais destas regiões, composta essencialmente por diferentes grupos etnolinguísticos, entre as quais se destacam os Herero, Ovambo, Nyanyeka-Humbe, Ganguela, Mbundu e grupos San, têm forte dependência dos recursos naturais para garantir a sua subsistência. Pastagens naturais, água superficial e subterrânea, solos agrícolas, lenha, frutos silvestres, peixe, mel e carne de caça constituem o “capital ambiental” destas populações. Assim, qualquer alteração significativa na disponibilidade de água ou na regeneração das pastagens, como ocorre durante períodos prolongados de seca, tem impactos directos e profundos na sua estabilidade socioeconómica.
Alguns dos povos do sudeste de Angola: Hereros (Sesc, 2015), San (Tourism, S.D.) e Ovambo (REAT, 2022)
Ao longo do tempo, estas populações desenvolveram estratégias tradicionais de adaptação às condições semiáridas do território. Entre essas estratégias destaca-se a transumância, prática que consiste na deslocação sazonal dos rebanhos em busca de água e pastagens, permitindo reduzir os riscos associados à irregularidade climática e à escassez de recursos naturais. Mas como a seca tem sido prolongada, os pastores são forçados a permanecer na transumância por mais tempo do que o habitual desestruturando agregados familiares e aumentando o volume de trabalho de mulheres e crianças.
Cronologia e Agravamento da Crise no Sul de Angola
A evolução recente da seca em Angola revela um agravamento progressivo dos seus impactos socioeconómicos. Embora a sistematização de dados enfrente desafios, os relatórios de organizações internacionais permitem traçar a magnitude desta crise humanitária relativamente aos últimos 10 anos:
O início do novo ciclo
- 2015: A UNICEF reportou a perda de 360.000 cabeças de gado e 52.000 toneladas de colheitas, resultando num prejuízo de 242,5 milhões de dólares. A insegurança alimentar afectou 800.000 pessoas, sendo 54% crianças e adolescentes e cerca de 420 mil pessoas tiveram falta de acesso à água potável e a condições sanitárias adequadas.
- 2016: Uma avaliação do PNUD identificou 1,1 milhões de pessoas afectadas, com maior incidência no Cunene (755.930), seguido da Huíla e do Namibe, evidenciando a fragilidade da economia de subsistência.
A intensificação e o ápice
- 2019: O número de afectados saltou para 2,3 milhões de pessoas, das quais 1,3 milhões enfrentavam insegurança alimentar aguda. Cerca de 1,2 milhões de crianças passaram a necessitar de assistência humanitária urgente devido à desnutrição e à falta de água potável.
- 2020: O impacto pecuário agravou-se com 810 mil bovinos e um milhão de pequenos ruminantes afectados, destruindo a principal forma de poupança das famílias rurais. Neste ano, o número de pessoas que dependiam de assistência humanitária urgente sobe para cerca 1,6 milhões.
- 2021: Foi o ano mais crítico em quatro décadas. No segundo trimestre, as projecções indicavam 7,3 milhões de pessoas expostas aos efeitos da seca. O Programa Alimentar Mundial – PMA (citado pelo relatório da UNICEF em 2022) reportou 3,8 milhões de pessoas com consumo alimentar insuficiente — um aumento de 135% em relação ao ano anterior. A crise deixou de ser exclusiva do Sudeste, atingindo níveis críticos em seis províncias: Cuanza Sul, Benguela, Huambo, Namibe, Huíla e Cunene. O Índice de Risco Climático das Crianças (CCRI) alertava ainda que Angola figurava entre os países mais vulneráveis aos impactos climáticos, indicando que as futuras gerações enfrentam uma ameaça contínua e estrutural, na qual desastres climáticos recorrentes comprometem o desenvolvimento infantil.
- 2022: Cerca de 1,58 milhões de pessoas permaneciam em condições de segurança alimentar crítica, com perdas incalculáveis na agricultura de sequeiro do Cunene.
O Futuro do Sul de Angola
O Sul de Angola continua a sofrer com os efeitos persistentes do fenómeno climático El Niño. Entre o final de Janeiro e o início de Março de 2024, foi registado um período de seca recorde de mais de 50 dias em plena estação chuvosa, com algumas áreas a apresentarem os menores índices de precipitação em pelo menos quatro décadas. Em 2025, cerca de 2,2 milhões de pessoas continuavam a necessitar de assistência humanitária, enquanto o atraso e a precipitação abaixo da média persistiam em afectar a produção agrícola e contribuíam para o aumento dos preços dos alimentos básicos.
O custo humano deste cenário é profundo e prolongado. Em muitas comunidades rurais, a resiliência das populações é testada em condições de sobrevivência extrema. A transumância forçada, que leva muitos pastores a deslocarem-se em busca de pastagens e água, desestrutura o tecido familiar e social, ao mesmo tempo que aumenta a sobrecarga de trabalho das mulheres. Entretanto, o impacto mais severo recai sobre as crianças, frequentemente obrigadas a abandonar a escola para participar na busca extenuante por água em regiões remotas, comprometendo o seu desenvolvimento e perpetuando ciclos intergeracionais de pobreza, conforme o CCRI alertou em 2021.
Gado bovino pastoreando sobre vegetação escassa assolada pela seca (MINAGRIP, 2022). Mulheres e crianças carregam água a grandes distâncias (UNICEF, 2019).
Perante este quadro, o alerta de seca no Sul de Angola deve ser entendido não apenas como um episódio climático, mas como o sinal de uma crise prolongada que exige respostas estruturais. A transição de uma abordagem meramente reactiva para a construção de uma resiliência de longo prazo torna-se, assim, uma necessidade urgente. Investimentos sustentados na gestão da água, na adaptação climática e na protecção dos ecossistemas poderão transformar um cenário de vulnerabilidade persistente numa base mais sólida para o desenvolvimento humano nas províncias de Cunene, Huíla e Namibe.
Referências
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https://secaangola.hypotheses.org/files/2022/04/Seca-em-Angola-Relatorio-2022-compressed.pdf

















