Em Angola, milhares de crianças vão à escola todos os dias sem acesso a um bem essencial: água potável. Esta não é apenas uma carência infraestrutural – é uma violação de direitos básicos e um obstáculo directo ao desenvolvimento humano. Quando uma escola não tem água, não tem dignidade. E sem dignidade, não há aprendizagem plena.
Segundo dados recentes, cerca de 62% das escolas nas províncias do Bié, Huambo, Namibe, Luanda, Cunene e Huíla não possuem qualquer sistema de abastecimento de água potável. As crianças aprendem, brincam e crescem num ambiente onde lavar as mãos é um luxo, e o acesso a uma casa de banho higiénica é uma excepção. Em muitos casos, a água disponível – quando existe – não é tratada. Apenas 24% das escolas que têm acesso à água fazem algum tipo de tratamento, como a adição de cloro. Nas zonas mais áridas, como o sul do país, esse número é ainda mais reduzido.
Estes dados refletem uma realidade nacional preocupante. Um inquérito do Instituto Nacional de Estatística (INE) indica que apenas 28% da população nas áreas rurais tem acesso a fontes melhoradas de água potável. Quando se olha para o sector da educação, a situação torna-se ainda mais crítica: mais de 50% das escolas não têm latrinas funcionais, e cerca de 68% não dispõem de locais para lavagem das mãos com sabão e água.
Saúde e rendimento escolar comprometidos
A falta de água nas escolas tem consequências profundas. Aumenta a vulnerabilidade das crianças a doenças como diarreia e cólera, que são transmitidas por consumo de água contaminada. Estas doenças, além de colocarem em risco a vida, obrigam os alunos a faltar às aulas, comprometendo o seu rendimento escolar. Há também um impacto grave sobre a permanência de meninas na escola, especialmente durante a menstruação, quando a ausência de água e saneamento adequado as força a faltar com frequência.
Professores, por sua vez, enfrentam dificuldades diárias para manter as condições mínimas de higiene e para realizar actividades básicas como preparar refeições escolares, limpar salas ou incentivar práticas de saúde e bem-estar.
Um problema estrutural e invisível
O problema não é apenas a ausência de água e a sua distribuição, mas sim a ausência de atenção. A gestão do sector de água e saneamento em Angola ainda apresenta grandes desigualdades, e as escolas – especialmente nas zonas rurais – ficam esquecidas nos planos e investimentos. Não basta perfurar um furo ou instalar uma torneira. É necessário garantir manutenção, envolvimento comunitário, formação e responsabilização.
Os dados oficiais são escassos, e a falta de monitorização regular impede respostas mais eficazes. Sem um sistema nacional de gestão de dados sobre água e saneamento nas escolas que seja funcional, torna-se impossível definir prioridades de investimento ou desenhar políticas públicas eficazes.
Sinais de mudança
Apesar disso, há iniciativas a mostrar caminhos possíveis. A UNICEF tem reabilitado furos e melhorado o abastecimento de água em algumas escolas no sul do país, beneficiando milhares de alunos. Algumas comunidades organizam comités escolares para gerir o uso da água e cuidar das infraestruturas. Organizações como a World Vision têm promovido acções de sensibilização e melhoria de instalações sanitárias em centros educativos.
Além disso, alguns programas-piloto incluem a introdução de sistemas de recolha de água da chuva, o uso de tecnologias de tratamento simples e formação de professores e alunos sobre higiene. São soluções de baixo custo, mas de alto impacto, quando aliadas ao engajamento local e à vontade política.
Água é dignidade e futuro
Garantir água potável nas escolas é investir em educação, saúde, igualdade de género e justiça social. É um compromisso com o futuro. Nenhuma criança deveria ter de escolher entre aprender e cuidar da sua saúde. Nenhuma menina deveria abandonar a escola por não ter onde lavar-se com dignidade. Nenhum professor deveria trabalhar num espaço onde a água é um privilégio, e não um direito.
A realidade pode ser dura, mas é transformável. A água é a base da vida – e nas escolas, deve ser também a base da dignidade e do conhecimento. Não deveriam existir tantas escolas secas num país tão rico em recursos hídricos como Angola. Só tomando acção conseguiremos que todas as crianças, sem excepção, possam aprender sem sede… e possam preocupar-se apenas do “saber”.








